Bom, acho que a partir de agora vou ter de fazer ginástica para poder continuar postando estas crônicas, porque do jeito que meu horário na fundação anda, meu tempo vai ter que ser muito bem organizado e distribuido para poder dar conta de tudo. Por exemplo, já faz duas semanas que não envio uma crônica ao jornal... Fora isso, me chamaram de uma escola para que começasse a ministrar um curso de teatro para adolescentes (não é a minha especialidade, mas como adoro dar aulas de teatro, montar peças e, além de tudo, estou precisando dar uma boa reforçada no meu orçamento, topei na hora) então aquelas idílicas tardes de folga durante a semana foram pro espaço. Mas acho que pode valer a pena, mesmo se o trabalho é somente interno, para a escola, e as apresentações só para os pais, alunos e professores; as peças -mais ou menos uma grande por ano e pequenas apresentações em datas comemorativas- não precisam ser demasiado elaboradas, já que o grau de exigência das freiras não é muito alto (mas eu posso mudar isso, é claro) e os alunos que farão parte deste curso serão aqueles que estão nos últimos anos, então não ficarão para continuar o trabalho no ano seguinte. É coisa para um ano, dois no máximo. Acho que para eles será mais uma atividade cultural-recreativa oferecida pela escola, mas eu pretendo dar-lhes bem mais do que técnicas vocais, dramáticas ou literárias, e espepro que aproveitem ao máximo o trabalho que vamos desenvolver.
Pode ser que eu não esteja mais em idade nem com saúde para tanto trabalho, mas por enquanto estou me sentindo ótima, cheia de energia e inspiração, querendo abraçar o mundo (mas prometo ser ajuizada) e recuperar todo o tempo e as possibilidades que acho que perdi ano passado... Bom, talvez essa parada sofrida tenha sido necessária e confesso que aprendi um monte de coisas ao longo desta provação, mas agora estou com a corda toda e pronta para produzir como nunca. Sei que Deus tem as coisas em sua cabeça e que nós quase nunca conseguimos entender ou aceitar as suas jogadas, mas no fim, se formos o mais dóceis, pacientes e perseverantes possível, sempre acabaremos ganhando e perceberemos que tudo valeu a pena. Nada é em vão, definitivamente.
E aqui vai a crônica desta semana. Queria postar um conto também, mas não sei se vai dar tempo porque ainda preciso redigir um texto para o ensaio de amanhã. Mas, tudo bem, se não for hoje, será no próximo fim de semana!.
Mesmo sabendo que a rua estava vazia, aquela desconfortável sensação de que mil olhos me espiavam escondidos atrás dos muros e das árvores, entre a folhagem e por trás das cortinas das janelas silenciosas enquanto enfiava a mão através da grade da casa do vizinho para agarrar e arrancar a mudinha de flores lilás que namorava há mais de um mês, me percorria como um hálito frio e sussurrante que gritava a minha pequena safadeza aos quatro ventos... A culpa é uma coisa feia e enorme que parece ter milhares de dedos e olhos que nos seguem e nos cutucam, vozes que murmuram e revelam os nossos atos inconfessáveis para quem queira escutar e produz pequenos estalos, rangidos e outros mil barulhos sutis que nos sobressaltam e nos fazem tremer, como se fossem um aviso constante de que o que estamos fazendo não é correto... Assim, enquanto me afastava pela rua abaixo, escondendo meu troféu sob o casaco e com a cabeça abaixada e os olhos fixos na calçada cheia de buracos e mato, podia jurar que escutava passinhos miúdos vindo atrás de mim, chegando cada vez mais perto, mais depressa... Até o atrito rítmico do agasalho sobre a calça jeans parecia delatar-me impiedosamente! Alguém tinha descoberto meu delito e estava prestes a me desmascarar, apontando-me o dedo no meio da rua e exigindo a sua muda de volta! Mas que vergonha, uma mulher adulta roubando planta do jardim dos outros em plena luz do dia! Isso é coisa que se faça?... Apressei os passos e me encolhi ainda mais, como se esperasse o toque brusco e ultrajado de uma mão pesada em meu ombro, pensando, totalmente corroída pelo remorso: "Por que não toquei a campainha, elogiei a flor para o vizinho e em seguida, com a maior naturalidade, lhe pedi uma mudinha, ao invés de me arriscar a passar por este vexame?"... Tinha absoluta certeza de que ele teria me dado a muda com o maior prazer e até teria acrescentado algumas dicas sobre como cuidar dela. Para que roubá-la, então? Estava, por acaso, à procura de emoções fortes?... A verdade é que não arranquei a planta com a raiz, só cortei um galhozinho de nada que colocaria na água para ver se soltava raiz e assim poder transpantá-la para meu jardim; então, a flor do vizinho não havia sofrido um grande dano e com certeza cresceria novamente... Então, o que me incomodava tanto?...
Chegando em casa, enchi um copo com água e coloquei a muda nele, deixando-a na janela da cozinha para que pegasse sol, tirei o casaco e as botas e fui preparar um chá. Enquanto aguardava a que a chaleira fervesse, sentei na mesa, de frente para a janela onde deixara a flor, e fiquei olhando para ela, ainda curiosa com o motivo pelo qual me sentira tão perturbada ao cortá-la... Talvez fosse pelo ato em si, pois fui ensinada que não é certo pegar coisas dos outros sem pedir, porém, acho que era mais pelo fato de ter invadido sorrateiramente os limites claramente impostos -tinha uma grossa grade de metal- pelos moradores da casa para surrupiar uma parte -por menor que fosse- do seu universo particular sem que sequer passasse pela minha cabeça a idéia de perguntar se poderia fazê-lo. Afinal, era um mundo construido por eles, para eles, do seu jeito todo peculiar, uma expressão de quem eram, e a minha enorme sensação de culpa provinha do fato de eu ter pego algo dele, de ter estragado o delicado equilíbrio e perfeição daquele quebra-cabeça tão cuidadosamente montado. Minha ação tinha quebrado a harmonia, com certeza, mesmo que eles não chegassem a notá-lo, pois cada folha, cada flor e arbusto daquele jardim era parte de um plano, de um projeto que pertencia àquelas pessoas e eu havia violado este desenho, deturpado seu carisma e o resultado final do processo... Por acaso pode-se invadir o espírito, o coração ou a vida de alguém, arrancar um pedaço dos seus sonhos e pensamentos ou sentimentos -não importa quão pequeno possa ser- amputar ou deformar as suas intenções, seus planos e objetivos e não sentir remorso algum? É começando por estes pequenos e esporádicos "atos ilegais" que se chega aos grandes crimes? É assim que funciona? Que destino me aguardava então?... Cada manifestação criada pelo homem possui um significado, uma intenção, é um elo vital na corrente dos acontecimentos da sua vida, um capítulo da sua história, não interessa quão simples ela seja. E só se pode interferir nestas coisas quando se é convidado. Ninguém daquela casa falou para mim: "Venha, entre e pegue uma muda desta flor que você gostou tanto! Meu jardim não sofrerá por isso pois eu estou consciente de que você está mudando-o e poderei refazê-lo de maneira que continue a ser o mesmo, apesar da ausência daquele galhozinho"...
Cheia de escrúpulos, me perguntava, enquanto mexia meu chá vagarosamente: "Será que ao cortar aquela muda alterei irremediavelmente a direção na qual a planta devia crescer? E o dono, teria algum propósito especifico e muito especial ao plantar aquelas flor justamente ali? Faria parte de algum traçado simbólico, de algum projeto, teria um significado peculiar?"... Eu própria não disponho as flores e folhagens em meu jardim por acaso; sempre tenho em mente a visão final e vou direcionando o crescimento das plantas segundo ele... Bebi um gole e o senti descer garganta abaixo, queimando-me... É, com certeza aquele galho não cresceria como era esperado, pois estaria faltando aquele pedaço que agora repousava silenciosamente no copo na janela da minha cozinha.
A trama das nossas existências é tão intrincada, tão delicada, está tão profundamente entrelaçada que dificilmente podemos separar uma vida da outra sem que isto gere consequências. Então, se seu equilíbrio é assim tão frágil, mesmo quando segue os caminhos certos e não encontra grandes obstáculos, que dirá então se alguma ponte é cortada, alguma porta trancada, alguma luz apagada num ato impensado e arbitrário, mesmo que cheio de boa vontade! Não podemos mexer em suas estruturas sem a devida autorização e sabedoria, pois podemos cometer um erro irreparável, mesmo com a melhor das intenções. Desviar uma vida do curso que está seguindo é uma responsabilidade tremenda, quase divina, pois ao mexer com a vida dos outros, automaticamemnte mexemos com a nossa, o que pode trazer consequências inesperadas e às vezes catastróficas para todos.
A muda que roubei naquele dia agora faz parte do desenho do meu próprio jardim; lhe dei um novo lugar, um outro significado, novas raízes. O sol bate nela de outro jeito, a terra tem outros nutrientes, outra paisagem a circunda; possui uma nova identidade. Preencheu aqui o que vai faltar lá e o que ela trouxe será diluido aos poucos pelo que absorverá aqui... Nunca se toma ou se dá sem esperar efeitos secundários, pois não há atos isolados. Todos formamos parte da mesma manifestação.
Deixei a xícara vazia na pia e ao olhar novamente para a muda no copo, me lembrei do instante em que, quase chegando ao portão da minha casa com ela escondida sob o casaco, me virei, certa de que alguém estaria ali olhando acusadoramente para mi, mas vi tão somente uma folhinha seca rolando pelo asfalto: aqueles eram os passos da minha culpa.
sábado, 13 de março de 2010
sexta-feira, 5 de março de 2010
Maldade
Esta última semana as coisas ficaram meio aceleradas por aqui, sobretudo no trabalho, porque acabei ficando encarregada não só de escrever o texto daquele espetáculo sobre o café, mas também meu chefe me passou -para completa surpresa minha- a direção e a criação das músicas deste espetáculo (bom, ainda bem que não é o primeiro musical que crio!)que a Fundação vai montar para incluir no roteiro de atrações turísticas da cidade, ligadas à Rota do Café, uma espécie de projeto do Ministério da Cultura junto aos municípios... Eu estava totalmente convencida de que quem iria dirigir, escolher o elenco, as músicas e redigir o texto seria ele próprio, mas de repente, por um desses milagres profissionais que andam acontecendo muito em minha vida desde que começou o ano, ele pareceu considerar que eu tenho capacidade suficiente como para dar conta da coisa toda e deixou tudo na minha mão... Não que não esteja feliz -não poderia estar mais!- mas é que não esperava que ele tivesse desenvolvido uma confiança tão grande em meu trabalho, isto considerando como foi infeliz, frustrante e punitivo o ano passado... Imaginem, estou radiante e tremendamente motivada, tanto que compus as 8 músicas em dois dias! (meus pobres dedos que o digam, ainda estão dormentes de tanto apertar as cordas do violão. Antigamente eu tinha calos, mas como parei de tocar eles sumiram, então, após gravar a última música, tive de correr à geladeira para botar eles no gelo)... Tenho algumas coisas mais em mente -como apresentar a idéia de montar uma das minhas peças com os alunos adultos ao invés de chamar um diretor de fora e gastar dinheiro- mas não sei se levá-las adiante não seria abusar da sorte e abraçar muita coisa que vai precisar de muita hora extra, tema que não é nada bem-vindo em nenhuma instituição municipal no momento... Mas, vamos ver, vou levar o texto para ele e pedir-lhe somente que o leia e me dê a sua opinião... De repente, quem sabe, ele não lê meu pensamento também...
Então, antes de que a coisa se complique mais pro meu lado -mesmo se estou adorando- aqui vai a crônica desta semana, num tom meio sombrio que não tem nada a ver com o estado do meu espírito, mas que achei interessante, já que nem tudo é sempre luminoso e positivo neste nosso mundo, infelizmente.
Fico observando de longe, com mórbido fascínio -uma mistura de horror, estupefação e asco- a maldade do Daniel. Sei que ele não é assim por escolha, mas porque sofre de uma doença mental grave -aliás, ele nem sequer deveria estar aqui, junto com os outros alunos, pois é uma verdadeira bomba-relógio- que faz com que, se não tomar seus remédios (que nem sempre a mãe tem dinheiro para comprar ou estão disponíveis nos postos de saúde) seja capaz de cometer qualquer atrocidade que a sua loucura lhe sugira... A sua é uma maldade que se espalha em volta dele como uma aura trêmula e viscosa, e deixa um rastro que quase pode ser farejado, tocado. São como tentáculos sempre em movimento, com pequenos olhos injetados nas pontas, que vivem à aprocura de alguma vítima desprevenida a quem provocar ou machucar... Caminha curvado, com os ombros encolhidos e a cabeça morena e hirsuta sempre projetada para frente, olhando de meio lado, com um sorrisinho insolente e sinistro nos lábios grossos e sempre ressecados. Esbarra propositadamente nas portas, móveis, paredes, vasos e nos outros colegas, para assim ter uma escusa para xingar, espernear ou incitar os outros à discussão ou à briga; e parece desfrutar sádica e intensamente estas situações. Quando os professores ou monitores não estão olhando bate nos mais fracos sem motivo algum, os insulta, lhes rouba o lanche, o material de trabalho e até as poucas moedas que eles conseguem trazer. Está sempre rodeando a cozinha, aguardando o menor descuido das zeladoras para se esgueirar até a geladeira, o fogão ou os armários de mantimentos e afanar alguma coisa para comer, pois a sua fome parece tão insaciável quanto a sua malevolência. Vale tudo: carne moída, bolo, frutas, pão velho, molho de macarrão, bolachas, restos do dia anterior ou que irão para o lixo, latas de almôndegas, leite condensado, ou peixe...
Quando vejo ele se aproximar pelo mesmo corredor em que eu estou, instintivamente procuro alguma sala para entrar e me esconder até ele passar, arrastando seus pés tortos dentro daquelas botinas pretas e surradas, já todas deformadas, e esmurrando com o punho cheio de crostas e cicatrizes as paredes e portas... Seguro o fôlego enquanto o escuto se afastar, a sua voz rouca murmurando palavrões e devanéios sem sentido contra tudo e todos, e só retorno à minha rotina quando tenho certeza de que ele está sob os cuidados de algum professor ou monitor -de preferência homem- pois sei que eles são os únicos capazes de dominá-lo e fazê-lo parar de agir feito um animal, sobretudo quando é vítima de um dos seus ataques de fúria... Por que me comporto assim com uma criança doente e abandonada? Com certeza não é por preconceito. Na verdade, é porque sou uma das vítimas que já foram xingadas e ameaçadas (com um canivete) por ele no meio de uma aula que corria pacificamente, sem razão aparente, e que teve de ser socorrida pelos outros professores para não sair ferida junto com outro menino que tentou interferir... Nunca vou esquecer daqueles olhos pretos e brilhantes, esbugalhados, daquele bafo a milímetros da minha face, daquela fala enrolada e babenta em meu ouvido e do brilho opaco da lâmina meio enferrujada do canivete dançando diante do meu rosto...
Daniel é, verdadeiramente e mesmo sem querer, a perfeita e assustadora personificação da maldade... O imagino daqui a alguns anos: um velho demente, sujo e desgrenhado, trancado na cela de algum hospício, lançando aquele seu olhar medonho através das grades... E o pior é que o mais provável é que seu destino seja esse mesmo.
Então, antes de que a coisa se complique mais pro meu lado -mesmo se estou adorando- aqui vai a crônica desta semana, num tom meio sombrio que não tem nada a ver com o estado do meu espírito, mas que achei interessante, já que nem tudo é sempre luminoso e positivo neste nosso mundo, infelizmente.
Fico observando de longe, com mórbido fascínio -uma mistura de horror, estupefação e asco- a maldade do Daniel. Sei que ele não é assim por escolha, mas porque sofre de uma doença mental grave -aliás, ele nem sequer deveria estar aqui, junto com os outros alunos, pois é uma verdadeira bomba-relógio- que faz com que, se não tomar seus remédios (que nem sempre a mãe tem dinheiro para comprar ou estão disponíveis nos postos de saúde) seja capaz de cometer qualquer atrocidade que a sua loucura lhe sugira... A sua é uma maldade que se espalha em volta dele como uma aura trêmula e viscosa, e deixa um rastro que quase pode ser farejado, tocado. São como tentáculos sempre em movimento, com pequenos olhos injetados nas pontas, que vivem à aprocura de alguma vítima desprevenida a quem provocar ou machucar... Caminha curvado, com os ombros encolhidos e a cabeça morena e hirsuta sempre projetada para frente, olhando de meio lado, com um sorrisinho insolente e sinistro nos lábios grossos e sempre ressecados. Esbarra propositadamente nas portas, móveis, paredes, vasos e nos outros colegas, para assim ter uma escusa para xingar, espernear ou incitar os outros à discussão ou à briga; e parece desfrutar sádica e intensamente estas situações. Quando os professores ou monitores não estão olhando bate nos mais fracos sem motivo algum, os insulta, lhes rouba o lanche, o material de trabalho e até as poucas moedas que eles conseguem trazer. Está sempre rodeando a cozinha, aguardando o menor descuido das zeladoras para se esgueirar até a geladeira, o fogão ou os armários de mantimentos e afanar alguma coisa para comer, pois a sua fome parece tão insaciável quanto a sua malevolência. Vale tudo: carne moída, bolo, frutas, pão velho, molho de macarrão, bolachas, restos do dia anterior ou que irão para o lixo, latas de almôndegas, leite condensado, ou peixe...
Quando vejo ele se aproximar pelo mesmo corredor em que eu estou, instintivamente procuro alguma sala para entrar e me esconder até ele passar, arrastando seus pés tortos dentro daquelas botinas pretas e surradas, já todas deformadas, e esmurrando com o punho cheio de crostas e cicatrizes as paredes e portas... Seguro o fôlego enquanto o escuto se afastar, a sua voz rouca murmurando palavrões e devanéios sem sentido contra tudo e todos, e só retorno à minha rotina quando tenho certeza de que ele está sob os cuidados de algum professor ou monitor -de preferência homem- pois sei que eles são os únicos capazes de dominá-lo e fazê-lo parar de agir feito um animal, sobretudo quando é vítima de um dos seus ataques de fúria... Por que me comporto assim com uma criança doente e abandonada? Com certeza não é por preconceito. Na verdade, é porque sou uma das vítimas que já foram xingadas e ameaçadas (com um canivete) por ele no meio de uma aula que corria pacificamente, sem razão aparente, e que teve de ser socorrida pelos outros professores para não sair ferida junto com outro menino que tentou interferir... Nunca vou esquecer daqueles olhos pretos e brilhantes, esbugalhados, daquele bafo a milímetros da minha face, daquela fala enrolada e babenta em meu ouvido e do brilho opaco da lâmina meio enferrujada do canivete dançando diante do meu rosto...
Daniel é, verdadeiramente e mesmo sem querer, a perfeita e assustadora personificação da maldade... O imagino daqui a alguns anos: um velho demente, sujo e desgrenhado, trancado na cela de algum hospício, lançando aquele seu olhar medonho através das grades... E o pior é que o mais provável é que seu destino seja esse mesmo.
domingo, 28 de fevereiro de 2010
Imagem
Bom, se eu já gostava de escrever, agora que -finalmente- estou de computador, teclado -com o qual preciso me acostumar ainda porque é bem menor do que o outro- mouse, impressora e até cadeira novos, imaginem então!... Estou, simplesmente, na mais completa glória!... Com certeza, depois disto, meu querido filho está isento do presente do dia das mães e do meu aniversário! Ele não faz idéia do que significou para mim esta sua atitude, não só porque precisava mesmo trocar meus equipamentos, mas porque ela demonstra o quanto ele se prepocupa e se importa comigo e com as coisas que eu amo. E isto, sim, não tem preço; é a parte mais valiosa do seu presente... É como ter recebido um tremendo ânimo e um poderoso voto de confiança para continuar e melhorar nesta vocação. Não canso de ficar aqui sentada criando e digitando; não me dóem as costas, nem os braços, nem a vista, porque a tela é maior e mais clara, então posso trabalhar por muito mais tempo do que com meu Velho Samurai (que, a propósito, foi doado para uma escolinha da periferia. Imaginem se ia jogar ele fora! Ainda pode servir a muita gente e eu estou muito grata pela sua companhia e fidelidade durante os anos em que trabalhamos juntos, acreditem. E disse isto a ele quando a moça o levava embora)... Na verdade, este novo computador parece, para mim, coisa de ficção científica, porque é extremamente rápido (nem dá tempo de se arrepender de ter clicado!) e tem um monte de acessórios que ajudam o usuário a trabalhar com maior facilidade e conforto. Tem coisa que ainda nem sei para que serve e outras que provavelmente nunca vou usar, porque as minhas necessidades são bem básicas, mas esta sensação de conforto e de modernidade, de novas -e velozes- possibilidades, que toma conta de mim cada vez que sento aqui vale cada giga desta preciosidade!...
Bom, e vamos deixar um pouco de lado este entusiasmo esfuziante -porque estou mesmo parecendo criança com brinquedo novo, mas eu sou assim mesmo, sobretudo quando ganho ou compro algo relacionado ao que mais amo nesta vida: escrever- e vamos para a crônica desta semana... Mas que eu não sairia nunca mais da frente do computador, ah, isso é a mais pura verdade...
E antes de que me esqueça: esta semana tem história nova no pazaldunate-estorias.blogspot.com, ok? Dêem uma passadinha por lá!
O homem passou por mim, veloz e silencioso feito uma sombra, franzino e mal vestido, cheirando a colônia barata. Eu já tinha escutado seus passos apressados atrás de mim havia algum tempo, e quando olhei seus pés adiante de mim percebi por que os ouvia tão distintamente: o homem calçava dois sapatos diferentes, um marrom e o otro preto, ambos folgados demais, surrados e meio disformes e, para minha surpresa, meias soquete femininas, também de pares diferentes. Calças curtas, jaqueta folgada demais, coberta de manchas e cerzidos, de uma cor indefinida, cabelo preto domado com muito gel, rosto consumido, de pequenos olhos apagados e erráticos, mal barbeado, maõs cheias de calos, unhas compridas e sujas... Olhando a sua nuca cor de terra me perguntei quantos anos teria, qual seria seu destino, ou de onde estava vindo. Qual seria seu passado? Quais os personagens da sua história? Qual a sua ladainha de desgraças e azares, de humilhações, de erros e fracassos? De quem era filho? Tinha esposa, filho, casa, cachorro, emprego?... Porém, não me parecia o pai de alguém e sim ele próprio uma criança abandonada e desiludida, ludibriada pelas miragens de um mundo que prometia muito e, no fim, só passava rasteira e deixava na vontade. Devia ter uns trinta e poucos anos, mas parecia carregar um século de desgraças em seus ombros estreitos e vergados...
Fiquei com a imagem do homem na cabeça durante muito tempo -como costuma acontecer-me quando algo ou alguém me impressiona- e quando cheguei em casa larguei a bolsa e as sacolas em cima da cama e, sem sequer beber um copo d'água apesar do calor que quase derretia meu cérebro, fui me colocar diante do espelho do meu quarto. Fiquei parada ali, contemplando a minha imagem em silêncio, comparando-a com a do homem... A dele nada escondia, pelo contrário, tudo revelava, tudo contava, pois não parecia ter nada a perder mostrando a sua verdade; não precisava manter uma imagem, enganar ou impressionar os outros, mentir ou inventar sobre a sua história... Então, pensei naquelas pessoas que precisam fazer isto: esconder, maquiar, disfarçar, criar e sustentar uma imagem para sobreviver, para não ser desprezadas, julgadas ou punidas pela sociedade. E pensei em mim mesma, nas dores que já carreguei e das quais ainda preciso acabar de me libertar, e que tão bem escondo para parecer forte, no controle da situação, sábia e serena... Infelizmente, a nossa imagem nem sempre condiz com o que está em nosso coração... E aí me ocorreu, inesperadamente: "E se eu fosse feito aquele homem, que escancarava a sua verdade para o mundo ver? O que aconteceria? Qual seria a reação das pessoas? Se compadeceriam? Se ofereceriam para me ajudar, me consolar, me emprestar dinheiro, me dar amor? Ou simplesmente me ignorariam, tal como eu tinha feito com o homem?... Que peso era mais esmagador? Ter de fingir ou suportar a indiferença?...
Bom, e vamos deixar um pouco de lado este entusiasmo esfuziante -porque estou mesmo parecendo criança com brinquedo novo, mas eu sou assim mesmo, sobretudo quando ganho ou compro algo relacionado ao que mais amo nesta vida: escrever- e vamos para a crônica desta semana... Mas que eu não sairia nunca mais da frente do computador, ah, isso é a mais pura verdade...
E antes de que me esqueça: esta semana tem história nova no pazaldunate-estorias.blogspot.com, ok? Dêem uma passadinha por lá!
O homem passou por mim, veloz e silencioso feito uma sombra, franzino e mal vestido, cheirando a colônia barata. Eu já tinha escutado seus passos apressados atrás de mim havia algum tempo, e quando olhei seus pés adiante de mim percebi por que os ouvia tão distintamente: o homem calçava dois sapatos diferentes, um marrom e o otro preto, ambos folgados demais, surrados e meio disformes e, para minha surpresa, meias soquete femininas, também de pares diferentes. Calças curtas, jaqueta folgada demais, coberta de manchas e cerzidos, de uma cor indefinida, cabelo preto domado com muito gel, rosto consumido, de pequenos olhos apagados e erráticos, mal barbeado, maõs cheias de calos, unhas compridas e sujas... Olhando a sua nuca cor de terra me perguntei quantos anos teria, qual seria seu destino, ou de onde estava vindo. Qual seria seu passado? Quais os personagens da sua história? Qual a sua ladainha de desgraças e azares, de humilhações, de erros e fracassos? De quem era filho? Tinha esposa, filho, casa, cachorro, emprego?... Porém, não me parecia o pai de alguém e sim ele próprio uma criança abandonada e desiludida, ludibriada pelas miragens de um mundo que prometia muito e, no fim, só passava rasteira e deixava na vontade. Devia ter uns trinta e poucos anos, mas parecia carregar um século de desgraças em seus ombros estreitos e vergados...
Fiquei com a imagem do homem na cabeça durante muito tempo -como costuma acontecer-me quando algo ou alguém me impressiona- e quando cheguei em casa larguei a bolsa e as sacolas em cima da cama e, sem sequer beber um copo d'água apesar do calor que quase derretia meu cérebro, fui me colocar diante do espelho do meu quarto. Fiquei parada ali, contemplando a minha imagem em silêncio, comparando-a com a do homem... A dele nada escondia, pelo contrário, tudo revelava, tudo contava, pois não parecia ter nada a perder mostrando a sua verdade; não precisava manter uma imagem, enganar ou impressionar os outros, mentir ou inventar sobre a sua história... Então, pensei naquelas pessoas que precisam fazer isto: esconder, maquiar, disfarçar, criar e sustentar uma imagem para sobreviver, para não ser desprezadas, julgadas ou punidas pela sociedade. E pensei em mim mesma, nas dores que já carreguei e das quais ainda preciso acabar de me libertar, e que tão bem escondo para parecer forte, no controle da situação, sábia e serena... Infelizmente, a nossa imagem nem sempre condiz com o que está em nosso coração... E aí me ocorreu, inesperadamente: "E se eu fosse feito aquele homem, que escancarava a sua verdade para o mundo ver? O que aconteceria? Qual seria a reação das pessoas? Se compadeceriam? Se ofereceriam para me ajudar, me consolar, me emprestar dinheiro, me dar amor? Ou simplesmente me ignorariam, tal como eu tinha feito com o homem?... Que peso era mais esmagador? Ter de fingir ou suportar a indiferença?...
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terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
A praça
Semana passada quase fiquei sem postar a crônica, pois tive um weekend realmente tumultuado... Primeiro, a minha impressora -tão jurássica quanto meu computador- pifou de forma definitiva e tive que sair correndo para comprar uma outra, coisa que não estava, nem de longe, em meus planos orçamentários, mas como ela é imprescindível para mim, tive que fazer o sacrifício e usar pela primeira vez meu cartão Visa (podem acreditar!) para poder pagar por ela. Aí, na loja estavam em oferta os teclados e os mouses (eu ainda tenho um daqueles de bolinha, sério!) então, como havia juntado um pouco de grana, decidi investi-la à vista nestes equipamentos mais modernos, já que meu filho disse que tinha comprado um computador para mim (ele não é um amor?) -é usado, um XP, mas de qualquer forma, é mais moderno do que o meu atual- e que o traria no fim de semana... Até aí, tudo bem, eu estava completamente exultante, mas na hora em que fui colocar o teclado e o mouse no CPU... cadê as entradas?... Pois é, a coisa é tão, mas tão antiga que simplesmente não tem tomadas para estes acessórios mais modernos!... Resultado? Não posso usar nem o mouse nem o teclado novos no computador velho. Bom, tudo nõ teria passado de uma piada se não fosse porque meu filho, afinal de contas, acabou não trazendo o computador, então, eu fiquei com tudo pela metade. Quer dizer, posso escrever, mas não posso imprimir e continuo brigando com a bolinha do mouse, que insiste em travar ou ir onde bem entende cada vez que vou usá-lo... Bom, não me resta mais do que ter paciência e esperar a que meu filho se digne aparecer com o computador e o instale para eu poder usar meus brinquedos novos... Mas eu lhes juro que já estou com coceira nas mãos de tanta ansiedade!
Aí, para completar o tumulto do fin de semana, não consegui escrever uma só linha de um trabalho sobre a história do café que preciso entregar na próxima semana na fundação porque não me enviaram por e-mail a informação que preciso, então já estou me preparando para levar uma bronca, mesmo que a culpa não seja minha...
Mas mesmo que o tivessem feito, acho que não teria conseguido escrever nada porque a minha filha veio aqui com um tremendo de um problema e eu tive que dar-lhe toda a minha atenção e meu apoio. Imaginem! Com que cabeça ía estar para produzir qualquer coisa? A minha filinha (mesmo com 30 anos) estava sofrendo! Não podia deixá-la naquela angústia para sentar aqui digitar um maldito texto sobre o café!... Então, optei por deixar que o mundo se explodisse e fiquei do lado dela escuctando-a, consolando-a e aconselhando-a. E quando ela foi embora no domingo à tarde eu estava tão exausta e preocupada que decidi sair para dar uma volta, espairecer, e pedir forças e inspiração... Aí, já viram, nem me lembrei de crônica, blog, história do café nem nada!... No entanto, hoje já estou melhor, confiante nos desígnios do bom Deus e muito contente porque acabei de ganhar mais uma semana de férias por conta de umas horas extra que me apareceram não sei de onde; tempo que pretendo aproveitar, é claro, escrevendo. E isto inclui a crônica desta semana. Bom, na verdade, da semana passada...
E sem mais delongas, que isto já está parecendo um romance e o blog das histórias é o outro, aqui vai a crônica.
O vento corre pelas ruas e pátios, entre a folhagem das árvores, entra pelas janelas e sai pelas portas e telhados, amenizando o tremendo calor. O mato cresce nos bueiros, agarrando-se às paredes de concreto liso e escuro, sempre úmido, com uma força e uma tenacidade que desafiam qualquer expectativa. Cresce e se assoma por entre as grades de ferro para mostrar seu verde triunfante. Os pardais, bem-te-vis e sanhaços cantam enquanto um dilúvio inunda a terra e faz dos homens reféns dentro das suas casas... E é assim em tudo: apesar de qualquer coisa, de todos os empecilhos e desafios, a vida sempre dá um jeito de se manifestar, de falar conosco, de nos alimentar e nos guiar... Extasiada diante desta verdade, quis sair correndo para falar com as pessoas e ver se encontrava pelo menos uma que concordasse com meu coraçao tão magníficamente iluminado!... Mas não encontrei, e então me senti sozinha e incompreendida, ingênua, quase ludibriada pelos milagres que acabara de presenciar. Como era possivel que só meu coração reparasse neles? Será que realmente aconteciam ou se tratava só da minha imaginação exacerbada? Ninguém queria me ouvir, ninguém queria ver!... Então, ir à desforra pareceu ser o mais adequado, rápido e efetivo. Foi o primeiro pensamento que veio à minha mente, foi o movimento instintivo, quase que de sobrevivência... Porque, é claro, o outro merecia, já que era incapaz de enxergar o que eu via, porque o outro era o culpado pela minha infelicidade, porque o outro sempre se deu melhor, porque o outro era feio, grosso, ignorante, pobre, insignificante, perigoso, e assim por diante, fui cavando mais e mais fundo na minha mágoa e no meu pessimismo, enterrando não só áqueles que apareciam na minha frente, mas a mim mesma também... Porém, antes de chegar ao fundo do abismo, parei, sem saber por quê, e fiquei observando o que havia dentro de mim mesma, e depois de alguns instantes desta expectante imobilidade que parecia esperar por algo, senti, emergindo dentre os escombros da praça arruinada que tinha virado meu coração, um perfume, um murmúrio como de água correndo, um vento de asas revoando sobre a minha cabeça humilhada e decepcionada, e eu fui obrigada a erguê-la, fui obrigada a ficar novamente em pé e respirar fundo, pois percebi que, de outra forma, seria engolida por aquele abismo sem fundo que eu própria cavara. Mas também percebi, encantada, que esse perfume, essa água, essas asas não eram outra coisa que os olhos de Deus me fitando, me puxando para cima... Então, de repente, ao sentir-me diante d'Ele, meu coração deu um pulo, fez uma pirueta de palhaço e se sacudiu, jogando para longe a raiva e a mágoa, e refletiu, com um quê de ousadia e até de bom humor: "Mas, por que não tentar a nobreza, a paciência, o perdão, a humildade? Por que não querer o bem do outro ao invés de desprezá-lo ou castigá-lo pelas minhas próprias falhas, tão humanas afinal de contas?... Sim, por que não fazer diferente desta vez? Por que não?"... E subitamente, sem um aviso, ao finalizar a última interrogante, a praça se reconstruiu num segundo, se encheu de luzes e enfeites, de música, de flores e pássaros. Um pedaço de céu intensamente azul e fresco se abriu em cima dela e um sol de ouro e fogo aqueceu as minhas entranhas, devolvendo-lhes a vida. Então, ao contemplar este quadro e me sentir parte dele, soube que Deus tinha me escutado e já havia respondido às minhas perguntas e concedido meus pedidos, e uma imensa paz tomou conta de mim... O que realmente importa, a despeito de qualquer aparência, é o que está no coração, e se ele estiver nas sombras, doente, solitário ou magoado, tudo em sua volta estará também escuro, frio e estagnado, porque teremos deixado o amor do lado de fora.
Aí, para completar o tumulto do fin de semana, não consegui escrever uma só linha de um trabalho sobre a história do café que preciso entregar na próxima semana na fundação porque não me enviaram por e-mail a informação que preciso, então já estou me preparando para levar uma bronca, mesmo que a culpa não seja minha...
Mas mesmo que o tivessem feito, acho que não teria conseguido escrever nada porque a minha filha veio aqui com um tremendo de um problema e eu tive que dar-lhe toda a minha atenção e meu apoio. Imaginem! Com que cabeça ía estar para produzir qualquer coisa? A minha filinha (mesmo com 30 anos) estava sofrendo! Não podia deixá-la naquela angústia para sentar aqui digitar um maldito texto sobre o café!... Então, optei por deixar que o mundo se explodisse e fiquei do lado dela escuctando-a, consolando-a e aconselhando-a. E quando ela foi embora no domingo à tarde eu estava tão exausta e preocupada que decidi sair para dar uma volta, espairecer, e pedir forças e inspiração... Aí, já viram, nem me lembrei de crônica, blog, história do café nem nada!... No entanto, hoje já estou melhor, confiante nos desígnios do bom Deus e muito contente porque acabei de ganhar mais uma semana de férias por conta de umas horas extra que me apareceram não sei de onde; tempo que pretendo aproveitar, é claro, escrevendo. E isto inclui a crônica desta semana. Bom, na verdade, da semana passada...
E sem mais delongas, que isto já está parecendo um romance e o blog das histórias é o outro, aqui vai a crônica.
O vento corre pelas ruas e pátios, entre a folhagem das árvores, entra pelas janelas e sai pelas portas e telhados, amenizando o tremendo calor. O mato cresce nos bueiros, agarrando-se às paredes de concreto liso e escuro, sempre úmido, com uma força e uma tenacidade que desafiam qualquer expectativa. Cresce e se assoma por entre as grades de ferro para mostrar seu verde triunfante. Os pardais, bem-te-vis e sanhaços cantam enquanto um dilúvio inunda a terra e faz dos homens reféns dentro das suas casas... E é assim em tudo: apesar de qualquer coisa, de todos os empecilhos e desafios, a vida sempre dá um jeito de se manifestar, de falar conosco, de nos alimentar e nos guiar... Extasiada diante desta verdade, quis sair correndo para falar com as pessoas e ver se encontrava pelo menos uma que concordasse com meu coraçao tão magníficamente iluminado!... Mas não encontrei, e então me senti sozinha e incompreendida, ingênua, quase ludibriada pelos milagres que acabara de presenciar. Como era possivel que só meu coração reparasse neles? Será que realmente aconteciam ou se tratava só da minha imaginação exacerbada? Ninguém queria me ouvir, ninguém queria ver!... Então, ir à desforra pareceu ser o mais adequado, rápido e efetivo. Foi o primeiro pensamento que veio à minha mente, foi o movimento instintivo, quase que de sobrevivência... Porque, é claro, o outro merecia, já que era incapaz de enxergar o que eu via, porque o outro era o culpado pela minha infelicidade, porque o outro sempre se deu melhor, porque o outro era feio, grosso, ignorante, pobre, insignificante, perigoso, e assim por diante, fui cavando mais e mais fundo na minha mágoa e no meu pessimismo, enterrando não só áqueles que apareciam na minha frente, mas a mim mesma também... Porém, antes de chegar ao fundo do abismo, parei, sem saber por quê, e fiquei observando o que havia dentro de mim mesma, e depois de alguns instantes desta expectante imobilidade que parecia esperar por algo, senti, emergindo dentre os escombros da praça arruinada que tinha virado meu coração, um perfume, um murmúrio como de água correndo, um vento de asas revoando sobre a minha cabeça humilhada e decepcionada, e eu fui obrigada a erguê-la, fui obrigada a ficar novamente em pé e respirar fundo, pois percebi que, de outra forma, seria engolida por aquele abismo sem fundo que eu própria cavara. Mas também percebi, encantada, que esse perfume, essa água, essas asas não eram outra coisa que os olhos de Deus me fitando, me puxando para cima... Então, de repente, ao sentir-me diante d'Ele, meu coração deu um pulo, fez uma pirueta de palhaço e se sacudiu, jogando para longe a raiva e a mágoa, e refletiu, com um quê de ousadia e até de bom humor: "Mas, por que não tentar a nobreza, a paciência, o perdão, a humildade? Por que não querer o bem do outro ao invés de desprezá-lo ou castigá-lo pelas minhas próprias falhas, tão humanas afinal de contas?... Sim, por que não fazer diferente desta vez? Por que não?"... E subitamente, sem um aviso, ao finalizar a última interrogante, a praça se reconstruiu num segundo, se encheu de luzes e enfeites, de música, de flores e pássaros. Um pedaço de céu intensamente azul e fresco se abriu em cima dela e um sol de ouro e fogo aqueceu as minhas entranhas, devolvendo-lhes a vida. Então, ao contemplar este quadro e me sentir parte dele, soube que Deus tinha me escutado e já havia respondido às minhas perguntas e concedido meus pedidos, e uma imensa paz tomou conta de mim... O que realmente importa, a despeito de qualquer aparência, é o que está no coração, e se ele estiver nas sombras, doente, solitário ou magoado, tudo em sua volta estará também escuro, frio e estagnado, porque teremos deixado o amor do lado de fora.
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sábado, 13 de fevereiro de 2010
Irmão asno
Como o carnaval não tem muito significado para mim, acho que vou aproveitar este longo feriado para descansar e terminar de botar em dia a correção e digitação dos meus diários antigos -dos quais, como já sabem, saem estas crônicas- porque estou começando a ficar com pouco material, mesmo tendo uma pilha de apontamentos que fiz ano passado para desenvolver; porque é assim que trabalho: tomo notas sobre fatos que me parecem interessantes ou me tocam especialmente, para depois desenvolvê-los, meditar sobre eles e chegar à conclusões ou descobrir a lição que contêm... Também quero ver se dá tempo, antes de começar a trabalhar de verdade, de revisar meus contos velhos (esta é uma linha na qual não trabalho há muito tempo, então vai ser bom para começar a praticar) para corrigi-los e assim ter histórias para botar no outro blog. Tenho até final de fevereiro, pois as aulas iniciam dia 1 de março e aí não vou ter tanto tempo nem tanto fôlego, porque a miha agenda está lotada de atividades. Mas não pensem que estou reclamando, não! Pelo contrário, estou adorando! É tudo que preciso para ser feliz e produzir, me sentir gratificada e realizada e cheia de inspiração para tudo!... Estou até pensando em retomar aqueles meus romances e deixá-los prontos para serem publicados no blog. Vai me dar trabalho, mas acho que vai valer a pena... Bom, na verdade, quando a gente faz algo que ama, tudo vale a pena, não é mesmo? Nunca falta tempo ou disposição, criatividade, paciência e horas extra (mesmo não sendo pagas)...
E aqui está a crônica desta semana, espero que gostem.
Falo baixinho com ele, falo com o pensamento e, algumas vezes, em voz alta e clara. Lhe confio todos os meus segredos -mesmo sabendo que ele os conhece de cor- escuto os seus que, por vezes são verdadeiras e nem sempre agradáveis surpresas. A consciência da sua existência é uma das sensações mais fortes e intimas em minha vida, é concreta, imediata, exigente. Sinto seus movimentos, todos eles, até os mais sutis e distantes. Às vezes me prega uns sustos, talvez porque faço com ele coisas que não deveria, coisas que o prejudicam, o judiam, o põem à prova... Então tenho medo das suas reações, feito uma criança que sabe que aprontou e merece ser punida por ter feito arte, por ter sido irresponsável... Outras vezes, ousada e alegre demais, faço pouco dele, tento esquecê-lo, o acuso injustamente e invento castigos bobos para ele. Então ele se rebela, protesta, faz um escarcéu para chamar a minha atenção e não sossega até consegui-lo. Aí, eu volto ao meu juízo e faço as pazes com ele porque, geralmente, é ele quem está certo.
Há um tempo atrás, até pretendia negar a sua existência, a sua participação em minha vida, a importância vital das suas ações como reflexo dos meus pensamentos e intenções, do meu desejo de expressão e realização, pois o achava problemático demais, muito instável, indigno de confiança ou crédito, cheio de regras de "bom comportamento", sempre refém do tempo e do espaço, das doenças, dos estados do meu espírito... Até que, num certo momento desta crise de incompatibilidade, entendi que tudo que ele queria era, simplesmente, participar saudávelmente da minha vida, a material e a espiritual, queria ser feliz -como eu- aprender, amadurecer dignamente, dar-me todas as sensações possíveis para que assim eu pudesse me tornar alguém melhor, mais sábia e próxima de tudo que me rodeia e faz parte das minhas experiências e realizações... E foi aí que me perguntei: "Por que não? Por que continuar com esta briga estúpida? Ela vai me levar a algum lugar, está me trazendo algúm benefício?"... Pois fico dividida quando estou zangada com ele e dividida me torno fraca, dispersa, pobre. Devo aceitar e lidar com seus limites e não condená-lo por causa deles, pois não estão ali à toa, mas para me proteger, para me sustentar, para me dar uma vida melhor e mais longa. Por que puni-lo então, se está somente cumprindo seu dever?... Afinal, é graças a ele que estou aqui!.
Não vou te chamar de "irmão asno", como são Francisco fazia, pois não te desprezo nem te considero a causa de todos meus pecados e fraquezas. Afinal, você também vem do espírito! Estamos aqui para percorrermos o caminho juntos, em harmonia e equilíbrio, com alegria e juízo, em paz e compartilhando todas as experiências e não para passar o tempo todo brigando e nos agredindo. Só permanecendo unidos, agindo como um só, cresceremos e nos tornaremos úteis para os demais. Você tem a sua parte neste processo -que precisa ser valorizada e respeitada- e meu espírito e a minha mente têm a deles, então a coisa não pode virar uma bagunça com uns invadindo o espaço e as tarefas dos outros, pois todos são igualmente importantes para que eu possa ser este alguém concreto e peculiar que todos conhecem. É você, como matéria, que existe neste plano; é meu veículo, a minha voz, meu instrumento para tudo. Sem você eu não estaria aqui nem passaria por todas estas experiências maravilhosas que me acontecem a cada passo. Sem a sua carne, seu sangue, seus músculos e ossos, seus órgãos e processos tão efêmeros e frágeis, tão sutis e fascinantes, a minha alma, que é poderosa e imortal, não teria uma casa. Não é um paradoxo fascinante ela ter escolhido justamente você como morada sagrada?... Isso deve significar alguma coisa, então é bom eu começar a levar você mais à sério... Sei que você vai gostar disso, e eu também, corpo meu.
E aqui está a crônica desta semana, espero que gostem.
Falo baixinho com ele, falo com o pensamento e, algumas vezes, em voz alta e clara. Lhe confio todos os meus segredos -mesmo sabendo que ele os conhece de cor- escuto os seus que, por vezes são verdadeiras e nem sempre agradáveis surpresas. A consciência da sua existência é uma das sensações mais fortes e intimas em minha vida, é concreta, imediata, exigente. Sinto seus movimentos, todos eles, até os mais sutis e distantes. Às vezes me prega uns sustos, talvez porque faço com ele coisas que não deveria, coisas que o prejudicam, o judiam, o põem à prova... Então tenho medo das suas reações, feito uma criança que sabe que aprontou e merece ser punida por ter feito arte, por ter sido irresponsável... Outras vezes, ousada e alegre demais, faço pouco dele, tento esquecê-lo, o acuso injustamente e invento castigos bobos para ele. Então ele se rebela, protesta, faz um escarcéu para chamar a minha atenção e não sossega até consegui-lo. Aí, eu volto ao meu juízo e faço as pazes com ele porque, geralmente, é ele quem está certo.
Há um tempo atrás, até pretendia negar a sua existência, a sua participação em minha vida, a importância vital das suas ações como reflexo dos meus pensamentos e intenções, do meu desejo de expressão e realização, pois o achava problemático demais, muito instável, indigno de confiança ou crédito, cheio de regras de "bom comportamento", sempre refém do tempo e do espaço, das doenças, dos estados do meu espírito... Até que, num certo momento desta crise de incompatibilidade, entendi que tudo que ele queria era, simplesmente, participar saudávelmente da minha vida, a material e a espiritual, queria ser feliz -como eu- aprender, amadurecer dignamente, dar-me todas as sensações possíveis para que assim eu pudesse me tornar alguém melhor, mais sábia e próxima de tudo que me rodeia e faz parte das minhas experiências e realizações... E foi aí que me perguntei: "Por que não? Por que continuar com esta briga estúpida? Ela vai me levar a algum lugar, está me trazendo algúm benefício?"... Pois fico dividida quando estou zangada com ele e dividida me torno fraca, dispersa, pobre. Devo aceitar e lidar com seus limites e não condená-lo por causa deles, pois não estão ali à toa, mas para me proteger, para me sustentar, para me dar uma vida melhor e mais longa. Por que puni-lo então, se está somente cumprindo seu dever?... Afinal, é graças a ele que estou aqui!.
Não vou te chamar de "irmão asno", como são Francisco fazia, pois não te desprezo nem te considero a causa de todos meus pecados e fraquezas. Afinal, você também vem do espírito! Estamos aqui para percorrermos o caminho juntos, em harmonia e equilíbrio, com alegria e juízo, em paz e compartilhando todas as experiências e não para passar o tempo todo brigando e nos agredindo. Só permanecendo unidos, agindo como um só, cresceremos e nos tornaremos úteis para os demais. Você tem a sua parte neste processo -que precisa ser valorizada e respeitada- e meu espírito e a minha mente têm a deles, então a coisa não pode virar uma bagunça com uns invadindo o espaço e as tarefas dos outros, pois todos são igualmente importantes para que eu possa ser este alguém concreto e peculiar que todos conhecem. É você, como matéria, que existe neste plano; é meu veículo, a minha voz, meu instrumento para tudo. Sem você eu não estaria aqui nem passaria por todas estas experiências maravilhosas que me acontecem a cada passo. Sem a sua carne, seu sangue, seus músculos e ossos, seus órgãos e processos tão efêmeros e frágeis, tão sutis e fascinantes, a minha alma, que é poderosa e imortal, não teria uma casa. Não é um paradoxo fascinante ela ter escolhido justamente você como morada sagrada?... Isso deve significar alguma coisa, então é bom eu começar a levar você mais à sério... Sei que você vai gostar disso, e eu também, corpo meu.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
Fios soltos
Bom, e finalmente, o dia tão temido chegou: a volta ao trabalho... No entanto, de temido só teve o nome, porque já começando com a reunião de quinta com os chefes e toda a equipe de professores para ficarmos em dia com as novidades para este ano, as coisas se mostraram surpreendentemente mudadas e abertas. Pareceu que, de repente, as nuvens, os abismos, as portas fechadas, os rancores e mágoas, os empecilhos e o negativismo que reinou imbatível ao longo de todo o ano que passou fora varrido por algum vento milagroso -e, diga-se de passagem, totalmente inesperado- e o que havia naquela sala era só otimismo, boa vontade, disposição e desejo de ir para frente, de chegar a um mesmo objetivo numa boa, sem punições nem cobranças... Era como estar começando do zero!... Eu passei as férias todas lutando para não me fazer nenhum tipo de expectativas -nem boas nem ruins- para não viver de antemão qualquer situação ou enfrentamento que pudesse acontecer por conta de desacordos, para não me pré-dispor a nada, para sequer parar para pensar no que poderia estar me aguardando, já que estava escaldada demais como para me sentir otimista ao respeito, e acho que consegui. Curti as férias, relaxei, me ocupei da minha saúde ( abalada por tantos desgostos) e escrevi muito, coisa que, para mi, é o melhor remédio para qualquer mal. Então, quando me ligaram na quarta avisando que haveria a tal reunião, redobrei meus esforços para não ficar ansiosa ou agressiva. Na quinta de manhã respirei fundo e, com aquele pequeno calafrio adejando em meu estômago apesar de todo meu autocontrole, fui à fundação de coração aberto e despojado, serena, bem disposta, otimista porém sem expectativas específicas. Não levei duas pedras na mão, mas a decisão de defender o que fosse melhor para mim, pessoal e profissionalmente... E o que foi que aconteceu?... Pois que Deus -esse malandro, mais uma vez!- me preparou uma surpresa e tanto, daquelas de cair o queixo!... À medida que a reunião foi se desenrolando pareceu que tudo e todos haviam mudado da água para o vinho, que não existiam mais desconfianças, zangas, ressentimentos ou confusões. Nos apresentaram dinâmicas novas, frescas, ágeis, práticas, nas quais todos podíamos participar e nos auxiliar... Nossa, eu não sei se fui eu ou se fomos todos a nos reunir com a mesma disposição positiva e equilibrada, aberta, mas de repente as coisas deslancharam, as portas se abriram, as oportunidades reapareceram (bom, acho que não fui somente eu a sofrer com os acontecimentos do ano passado. Cada qual, pelo que percebi, teve a sua quota de dor, revolta e desânimo, mas aprendemos muito com isto, com certeza). Num piscar de olhos -tão facilmente, meu Deus!- recuperei meu lugar, as minhas funções; vou ser aproveitada em todas as áreas e vou poder criar, criar e criar muito, que era tudo que eu desejava. Até parecia que eles tinham lido meus pensamentos com respeito a certos aspectos profissionais e práticos e o jeito como eu -e os outros, na verdade- achava que deviam ser realizados!... Meus horários vão ficar meio doidos e nada de pagar hora extra, mas, querem saber, meus amigos? Eu não estou nem aí!... Vou fazer o que sei fazer melhor, vou ter a chance de cooperar com todas as outras áreas com tudo que tenho a oferecer e isto me deixa completamente feliz, mesmo sabendo que vai significar muito trabalho, muita criação e muita organização, sobretudo para não descuidar a minha glicemia... Mas, em comparação, vai ser extraordinariamente gratificante e enriquecedor, então... Quem poderia desejar mais?... Bom, talvez um salário um pouco melhor, que ninguém é de ferro e as contas não evaporam feito "baleias azuis" no céu, mas, por enquanto, a felicidade de voltar a ser útil e valorizada, de poder usar meus talentos para ajudar nas outras áreas e assim termos resultados espectaculares que deixem todo mundo contente, não tem dinheiro que pague. É claro que vou ficar muuuito feliz se vier um aumento -em março, espero- mas se não vier, isso não vai roubar um pingo da minha alegria profissional este ano. Agora, só falta ganhar algum escrevendo!...
E depois deste testamento, aqui vai a desta semana, após a qual espero não derreter em cima do teclado, porque o calor está de matar...
Às vezes é um cheiro, uma cor, uma rajada de vento, uma paisagem ou um som que vem sem avisar, quando menos o espero, e ali estou eu, voltando ao passado num pulo vertiginoso... É uma coisa realmente impressionante estar a tantos anos e quilômetros de distância dos fatos e dos lugares e de repente, gratuitamente, ter uma impressão tão nítida e presente deles, como se bastasse abrir a porta para penetrar nesse passado e continuar a vivê-lo como se o tempo não tivesse transcorrido. Fico totalmente paralisada enquanto a lembrança vai tomando conta, envolvendo-me, tornando-se a cada instante mais presente e real, e quando finalmente me transporta inteira para a sua realidade, é uma mistura de prazer, alegria e imensa saudade... Acho que, na verdade, existem duas pessoas dentro de mim: a atual, que mora, trabaha e tem uma família aqui, e a outra, que vivenciou as experiências e, de certa forma, está presa ao passado pelo seu significado.
Viajando de carro, passamos diante de uma casa inacabada, circundada por um pequeno bosque e com uma varanda cheia de avencas e, imediatamente, veio à minha mente a imagem daquela grande casa defronte para o mar, ainda sem terminar, paredes de cimento cru e vigas à mostra, rodeada de pinheiros e areia, na qual o tio Willye a tia Nana nos invitavam para passar as férias, em Concón. Quantos verões agradáveis e cheios de alegria e diversão passamos junto com aquela família original e cantora! Era uma festa permanente, todos sempre animados, rindo e brincando -a despeito das brigas e caras feias dos nossos pais- sempre inventando jogos e passeios liderados pelo tio Jaime, irmão da tia Nana, um palhaço lindo e encantador, totalmente desregrado, que vivia vidas secretas que tiravam do sério o resto da família. Aquela casa e tudo que nela havia tinha um cheiro todo especial, de coisa sempre por terminar, improvisada, porém extremamente aconchegante e segura. Lembro de escutar o barulho do mar desde a sacada à noite, e de sentir seu cheiro salgado e pegajoso abraçando-me com força, como se quisesse contar-me seus segredos ou levar-me para as suas entranhas escuras e misteriosas. O vento o trazia em lufadas constantes e rítmicas, como se fosse a respiração de um gigante adormecido, e ele pairava sobre casas e pessoas, penetrava por todas as frestas, misturando-se com o aroma da comida, do bronzeador, das toalhas e lençóis...
Estas lembranças, como num flash, acudiram à minha cabeça enquanto passávamos diante daquela casa à beira da rodovia, e fui capaz de sentir o cheiro, de ouvir as vozes, de rever as imagens e sentir as sensações daquela época da minha infância. Pareceu que até podia lembrar dos pensamentos, dos olhares, de cada descoberta, dos insetos e das folhas das árvores, da areia amarela; parecia que podia escutar o clique da máquina fotográfica que tirou aquela foto minha apoiada na cerca de troncos com os pinheiros de fundo, magra e de cabelos curtos e desordenados, meio sorridente em meu vestido folgado, que está guardada na caixa de papelão no compartimento da estante da sala...
Verdadeiramente, recordação é algo mágico, tem poderes de cura, de rejuvenescimento, de compreensão e até de perdão. Pois ao lembrar, às vezes, conseguimos entender a nossa vida e seus processos, as nossas ações e as dos outros e as suas conseqüências, as palavras e gestos, as decisões, as perdas, as vitórias e fracassos, Mágoas, alegrias, frustrações, tristezas, conquistas, o despertar do entendimento, da vocação, da busca pela felicidade, o começo da realização, tudo isto vem à tona e nos coloca diante da nossa própria história com outros olhos, abrindo nosso coração para enxergá-la com maturidade e compaixão. Lembrar é retomar os fios soltos para integrá-los à trama do tecido da nossa existência, é resgatar opções e objetivos, é ganhar novas forças e despertar antigos sonhos; é saudade, é compreensão, é perdão.
Passado é passado, como se diz, mas acredito que não está ali à toa, só para enfeitar os nossos relatos ou nos deixar saudosos, felizes, arrependidos ou magoados; não são só o que resta aos velhos. Parar a caminhada hoje e dar uma olhada nele às vezes é como entrar num oásis do qual se sai revigorada e mais sábia para continuar a jornada em direção ao futuro.
E depois deste testamento, aqui vai a desta semana, após a qual espero não derreter em cima do teclado, porque o calor está de matar...
Às vezes é um cheiro, uma cor, uma rajada de vento, uma paisagem ou um som que vem sem avisar, quando menos o espero, e ali estou eu, voltando ao passado num pulo vertiginoso... É uma coisa realmente impressionante estar a tantos anos e quilômetros de distância dos fatos e dos lugares e de repente, gratuitamente, ter uma impressão tão nítida e presente deles, como se bastasse abrir a porta para penetrar nesse passado e continuar a vivê-lo como se o tempo não tivesse transcorrido. Fico totalmente paralisada enquanto a lembrança vai tomando conta, envolvendo-me, tornando-se a cada instante mais presente e real, e quando finalmente me transporta inteira para a sua realidade, é uma mistura de prazer, alegria e imensa saudade... Acho que, na verdade, existem duas pessoas dentro de mim: a atual, que mora, trabaha e tem uma família aqui, e a outra, que vivenciou as experiências e, de certa forma, está presa ao passado pelo seu significado.
Viajando de carro, passamos diante de uma casa inacabada, circundada por um pequeno bosque e com uma varanda cheia de avencas e, imediatamente, veio à minha mente a imagem daquela grande casa defronte para o mar, ainda sem terminar, paredes de cimento cru e vigas à mostra, rodeada de pinheiros e areia, na qual o tio Willye a tia Nana nos invitavam para passar as férias, em Concón. Quantos verões agradáveis e cheios de alegria e diversão passamos junto com aquela família original e cantora! Era uma festa permanente, todos sempre animados, rindo e brincando -a despeito das brigas e caras feias dos nossos pais- sempre inventando jogos e passeios liderados pelo tio Jaime, irmão da tia Nana, um palhaço lindo e encantador, totalmente desregrado, que vivia vidas secretas que tiravam do sério o resto da família. Aquela casa e tudo que nela havia tinha um cheiro todo especial, de coisa sempre por terminar, improvisada, porém extremamente aconchegante e segura. Lembro de escutar o barulho do mar desde a sacada à noite, e de sentir seu cheiro salgado e pegajoso abraçando-me com força, como se quisesse contar-me seus segredos ou levar-me para as suas entranhas escuras e misteriosas. O vento o trazia em lufadas constantes e rítmicas, como se fosse a respiração de um gigante adormecido, e ele pairava sobre casas e pessoas, penetrava por todas as frestas, misturando-se com o aroma da comida, do bronzeador, das toalhas e lençóis...
Estas lembranças, como num flash, acudiram à minha cabeça enquanto passávamos diante daquela casa à beira da rodovia, e fui capaz de sentir o cheiro, de ouvir as vozes, de rever as imagens e sentir as sensações daquela época da minha infância. Pareceu que até podia lembrar dos pensamentos, dos olhares, de cada descoberta, dos insetos e das folhas das árvores, da areia amarela; parecia que podia escutar o clique da máquina fotográfica que tirou aquela foto minha apoiada na cerca de troncos com os pinheiros de fundo, magra e de cabelos curtos e desordenados, meio sorridente em meu vestido folgado, que está guardada na caixa de papelão no compartimento da estante da sala...
Verdadeiramente, recordação é algo mágico, tem poderes de cura, de rejuvenescimento, de compreensão e até de perdão. Pois ao lembrar, às vezes, conseguimos entender a nossa vida e seus processos, as nossas ações e as dos outros e as suas conseqüências, as palavras e gestos, as decisões, as perdas, as vitórias e fracassos, Mágoas, alegrias, frustrações, tristezas, conquistas, o despertar do entendimento, da vocação, da busca pela felicidade, o começo da realização, tudo isto vem à tona e nos coloca diante da nossa própria história com outros olhos, abrindo nosso coração para enxergá-la com maturidade e compaixão. Lembrar é retomar os fios soltos para integrá-los à trama do tecido da nossa existência, é resgatar opções e objetivos, é ganhar novas forças e despertar antigos sonhos; é saudade, é compreensão, é perdão.
Passado é passado, como se diz, mas acredito que não está ali à toa, só para enfeitar os nossos relatos ou nos deixar saudosos, felizes, arrependidos ou magoados; não são só o que resta aos velhos. Parar a caminhada hoje e dar uma olhada nele às vezes é como entrar num oásis do qual se sai revigorada e mais sábia para continuar a jornada em direção ao futuro.
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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Baleias azuis
Bom, dizem por aí que tudo que é bom, termina -ainda bem que sempre tem mais, né?- e só para confirmar este infeliz ditado, as minhas férias acabam esta quinta feira. Bom, na verdade parece uma piada retornar ao trabalho numa sexta-feira e, uma semana depois, parar por causa do feriado de carnaval (ainda me pergunto por que este país não toma uma atitude lógica e prática e começa o novo ano letivo, comercial, político e cultural depois no carnaval, já que tudo pára mesmo neste feriado) mas como a burocracia impera orgulhosa e irredutível em tudo que é órgão público que se preze, cá estou eu, voltando à fundação -e sem conhecer meu destino ainda porque com o corte de orçamento os projetos foram pro espaço- em plena sexta-feira para dar um alô e achar algum canto para passar a tarde sem fazer nada... Bom, pode ser que meu chefe já tenha algum plano para mim e me chame logo para me botar em algum tipo de função, mas como esse momento não chegou, não vou desperdiçar estes últimos gloriosos dias de relax e glicemia baixa me preocupando com isto... É engraçado, no fim das férias a gente começa a ficar doidinho para retornar ao batente porque não agüenta mais ficar em casa sem fazer nada, mas estas férias tem sido tão serenas e produtivas para mim que não tenho um pingo de vontade de voltar, apesar de adorar meu trabalho... que espero possa realizar à contento este ano, porque outro como o que passou, nem morta!...
Abri os blogs de contos e me encontrei com três visitas (Calma, meu filho fez essa mesma cara, mas, afinal, não faz duas semanas que o abri!) o que me deixou totalmente animada, então hoje vou postar o primeiro capítulo da segunda história. Ainda não os abri hoje, o que significa que posso tener mais uma agradável surpresa. Afinal, a esperança é a última que morre!.
Como imensas baleias azuis, as nuvens sulcam pesadamente o céu cinzento sobre as nossas cabeças e algumas grossas gotas de chuva já se chocam contra o vidro da janela entreaberta... As contemplo desde o chão, onde estou deitada sobre um colchonete, e a sua visão me traz sensações e lembranças de algo indefinido... A minha infância talvez; o céu infinito e limpíssimo sobre o deserto e os solitários trilhos do trem dos mineiradores. A ventania indomável de Quinteros. Os bosques de pinheiros sussurrando e embalsamendo o ar com seu perfume ardido e selvagem. As ruas de Santiago e seus mil fios e vitrines, os ônibus e as pessoas embrulhadas em seus agasalhos. O mar azul, verde, cinza, alaranjado, em eterno movimento, empurrando seu sal e seu cheiro para as praias de areias amarelas... Penso em tudo isto, e nas formas que a vida toma para se comunicar conosco, para nos ensinar e interagir com a nossa história. E penso nas formas que a minha vida vai tomando, conforme os acontecimentos. Formas lentas, completas, de movimentos grandes e suaves, cheias de mudanças sutis, porém definitivas, tal qual as baleias no céu ou a entrada do outono, quando o cenário se transforma e pinta novas paisagens, traz outras temperaturas, dias de vento e sol, de chuvas repentinas, de folhas amarelas e vermelhas, xícaras de chá preto e veladas junto ao fogo... A passagem do verão para o inverno. O trânsito que é o veiculo para as definições. O eterno movimento que transforma, irreversivelmente, tudo que vive. Tudo que se mexe muda, não volta atrás, sempre renasce, constrói, cresce.
Estou sozinha na sala, deitada no chão, aguardando a minha próxima aluna -que pelo visto, não virá, com certeza por causa des baleias azuis que tomam conta do céu- O prédio está em absoluto silêncio. Meu coração palpitando parece ser a única coisa viva ali, que se mexe e procura algo nas sombras caladas. Talvez o próximo capítulo da minha história? Mas, isso é possível? Há como saber o que vem a seguir, ou é tudo feito aquelas nuvens, que ora são baleias, ora são pássaros, árvores ou borboletas, anjos ou cavalos? Cada forma depende da velocidade e direção em que o vento sopra, assim como o nosso futuro depende do que fazemos no presente, de como e por que o fazemos, do que pretendemos. As nuvens se rendem ao vento. Nós nos rendemos aos planos de Deus...
De repente, uma revoada de andorinhas invade o céu cinza. As baleias se desmancham preguiçosamente, e vão nadar sobre outros lugares... A minha vida caminha, serena, em permanente transformação, às vezes silenciosa, às vezes barulhenta, veloz ou demorada, brilhante ou povoada de trevas. Sinto as coisas aproximando-se e acho que estou preparada para recebê-las, sejam elas quais forem pois, feito as baleias azuis no firmamento, sou capaz de me transformar, de me moldar, de me construir ou desconstruir sem perder a minha essência jamais.
Abri os blogs de contos e me encontrei com três visitas (Calma, meu filho fez essa mesma cara, mas, afinal, não faz duas semanas que o abri!) o que me deixou totalmente animada, então hoje vou postar o primeiro capítulo da segunda história. Ainda não os abri hoje, o que significa que posso tener mais uma agradável surpresa. Afinal, a esperança é a última que morre!.
Como imensas baleias azuis, as nuvens sulcam pesadamente o céu cinzento sobre as nossas cabeças e algumas grossas gotas de chuva já se chocam contra o vidro da janela entreaberta... As contemplo desde o chão, onde estou deitada sobre um colchonete, e a sua visão me traz sensações e lembranças de algo indefinido... A minha infância talvez; o céu infinito e limpíssimo sobre o deserto e os solitários trilhos do trem dos mineiradores. A ventania indomável de Quinteros. Os bosques de pinheiros sussurrando e embalsamendo o ar com seu perfume ardido e selvagem. As ruas de Santiago e seus mil fios e vitrines, os ônibus e as pessoas embrulhadas em seus agasalhos. O mar azul, verde, cinza, alaranjado, em eterno movimento, empurrando seu sal e seu cheiro para as praias de areias amarelas... Penso em tudo isto, e nas formas que a vida toma para se comunicar conosco, para nos ensinar e interagir com a nossa história. E penso nas formas que a minha vida vai tomando, conforme os acontecimentos. Formas lentas, completas, de movimentos grandes e suaves, cheias de mudanças sutis, porém definitivas, tal qual as baleias no céu ou a entrada do outono, quando o cenário se transforma e pinta novas paisagens, traz outras temperaturas, dias de vento e sol, de chuvas repentinas, de folhas amarelas e vermelhas, xícaras de chá preto e veladas junto ao fogo... A passagem do verão para o inverno. O trânsito que é o veiculo para as definições. O eterno movimento que transforma, irreversivelmente, tudo que vive. Tudo que se mexe muda, não volta atrás, sempre renasce, constrói, cresce.
Estou sozinha na sala, deitada no chão, aguardando a minha próxima aluna -que pelo visto, não virá, com certeza por causa des baleias azuis que tomam conta do céu- O prédio está em absoluto silêncio. Meu coração palpitando parece ser a única coisa viva ali, que se mexe e procura algo nas sombras caladas. Talvez o próximo capítulo da minha história? Mas, isso é possível? Há como saber o que vem a seguir, ou é tudo feito aquelas nuvens, que ora são baleias, ora são pássaros, árvores ou borboletas, anjos ou cavalos? Cada forma depende da velocidade e direção em que o vento sopra, assim como o nosso futuro depende do que fazemos no presente, de como e por que o fazemos, do que pretendemos. As nuvens se rendem ao vento. Nós nos rendemos aos planos de Deus...
De repente, uma revoada de andorinhas invade o céu cinza. As baleias se desmancham preguiçosamente, e vão nadar sobre outros lugares... A minha vida caminha, serena, em permanente transformação, às vezes silenciosa, às vezes barulhenta, veloz ou demorada, brilhante ou povoada de trevas. Sinto as coisas aproximando-se e acho que estou preparada para recebê-las, sejam elas quais forem pois, feito as baleias azuis no firmamento, sou capaz de me transformar, de me moldar, de me construir ou desconstruir sem perder a minha essência jamais.
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