domingo, 20 de julho de 2014

"Meu Deus, como o tempo voa!"

    Bom, parece que, definitivamente o nosso veranico acabou. Depois de uma semana de sol esplendoroso e temperaturas primaveris, hoje amanheceu frio e com uma névoa espessa que nao sei de onde veio, porque ontem estava um céu de brigadeiro. Nao para ver nem o morro do Sao Cristóvao aqui perto e mal dá para enxergar os prédios da calcada em frente!... Só espero que mais tarde isto se disipe, porque senao é capaz de eu me perder quando sair para passear com as cadelinhas... É muito esquisito olhar pela janela e nao ver nada além de uma cortina branca. Parece que a gente está sonhando. É a mesma sensacao que eu tinha quando era garota e ia no colégio num dia assim. Para chegar lá precisava cruzar uma enorme data vazia rodeada por esta névoa, e sempre era tomada por aquela sensacao de que nao iria conseguir, de que seria engolida por aquela nuvem espessa... Ainda bem que, efetivamente, estava acordada e, pouco tempo depois, com passos meio hesitante, devo confessar, eu já podia enxergar os prédios e as grades do colégio... Mas o susto e a sensacao desagradável ficavam ainda por um tempo.
    E como hoje já nao preciso ir ao colégio -até porque é domingo- posso sentar aqui tranquilamente para postar a minha crônica da semana sem me preocupar em ser devorada por esta neblina londrina que toma conta da cidade.


    Realmente, me sinto fascinada por esta questao do tempo, de viver o presente, de ser feito os cachorros, que curtem o aqui e o agora sem nenhum problema. Porque, se paramos para pensar, isso é tudo que temos. Nem sequer podemos antever o seguinte minuto da nossa vida, a nao ser que tenhamos algum dom sobrenatural. Toda ela consta de um constante presente y mais nada. Entao, se supoe que esta consciência deveria preservar-nos de toda ansiedade e temor, mas infelizmente  nao é  bem assim. Nao sei se é devido a que estamos sempre tracando planos e preparando nosso futuro -e às vezes o dos outros- e a expectativa de que os nossos projetos tenham sucesso nos impede perceber que a única realidade é a que acontece neste momento, entao nos afligimos por acontecimentos que nao existem e vivemos com a cabeca no amanha, deixando passar o presente como se nao tivesse nenhum valor.
    Eu sei que  a gente precisa ter objetivos e planejar estratégias e caminhos para atingi-los, porém, às vezes este trabalho nos consome de tal forma que nao nos damos conta de que nao estamos vivendo o presente, que é a verdadeira realidade. Acho que dalí vem a surpresa que toma conta de nós quando um dia nos olhamos no espelho e exclamamos, assustados: "Meu Deus, como o tempo voa!", e nos sentimos injusticados  pela sua pressa e falta de consideracao... No entanto, se tivéssemos vivido nosso presente ao mesmo tempo em que planejávamos o futuro, talvez nao levaríamos uma surpresa tao desagradável.
    Mas, será que esta combinacao é possível? Será que poderíamos conseguir o equilíbrio entre estes dois estados de consciência?... Acredita-se que viver somente o hoje pode ser uma atitude irresponsável. Mas viver focalizado somente no futuro também é. Entao, o que fazer?... Talvez planejar o amanha e construi-lo dia após dia, sem se adiantar, fazendo que nosso presente bem vivido seja feito um grao de areia -colocado um de cada vez- na construcao do prédio da nossa existência.
    Será que consigo viver deste jeito?...

sábado, 12 de julho de 2014

"A lista"

    É bom, quando a gente fica nostálgica demais do passado, sentar e trazê-lo para a realidade, porque sempre se tem o costume de idealizar, enfeitar e até mudar um pouco aquilo do qual temos saudades, o que só nos provoca dor e frustracao... Eu fiz este exercício outro dia e, ao analisar e botar tudo na perspectiva da realidade, acontece que, mais uma vez, percebi que aquilo tudo pertencia ao passado, que tinha me ensinado muito, mas que era impossível revivê-lo ou retomá-lo. Tudo tinha mudado e também tinha a sua parte bastante negativa... Mas é que quando a gente está meio perdida ou frustrada no presente, tem a tendência de procurar consolo em épocas que -aparentemente- foram melhores, sem perceber que todas elas têm seu lado positivo e negativo, inclusive a presente que, daqui a algum tempo, virará esse passado no qual procuramos saídas... Porém, o passado está fechado, os ciclos se completaram (por isso sao passado) as pessoas e as situacoes mudaram... Entao, sob essa perspectiva, é melhor lembrar numa boa ao invés de sofrer por nao poder voltar atrás. É melhor trazer as licoes para este presente e usá-las para transformá-lo em algo que nos realize e nos deixe felizes e em paz.
    Licao aprendida (mas nao prometo que nao voltarei a sentir saudades, mas agora saberei como lidar com isso) vamos ao que interessa: a crônica da semana. Aqui vai:


    Dizia a psicóloga para a mulher que sofria de depressao, num programa de televisao: "Toda vez que você comecar a ter pensamentos negativos ou se sentir angustiada pelos problemas, faca uma lista deles numa folha de papel e, na frente, escreva um pensamento positivo que o neutralize ou, entao, uma acao que solucione esse problema que aflige você."...
    Eu estava esparramada no sofá, passando distraidamente de um canal para outro, pleno sábado à tarde, quando passam juntos todos o programas e filmes que você já assistiu durante a semana, e de repente esbarrei com este programa, do tipo auto-ajuda. Em geral, nao dou muita bola para este tipo de coisa (depois das quais a gente se pergunta: "Como foi que eu nao pensei nisso aí antes?")  mas desta vez tirei o dedo do controle remoto e fiquei assistindo um pouco e refletindo... E no fim das contas, aquilo me pareceu uma ótima estratégia para combater nao só a depressao, mas também aqueles dias em que a gente acorda atravessada e enxerga tudo preto... A coisa, pensei, é botar para fora tudo que nos atormenta, enfrentá-lo cara a cara -nao importa quao medonho seja- e tentar encontrar uma saída, uma solucao ou, pelo menos, um jeito de lidar com isso de forma que nao nos paralise. Já sabemos que nada se consigue com lamentacoes -pode fazer no primeiro momento, mas a gente nao pode ficar nessa- culpando o mundo, se deprimindo ou entrando em pânico. Tampouco vale abaixar a cabeca e se conformar e dar uma de vítima. Tudo isto só nos afunda, fecha as portas, nos afasta de quem pode nos ajudar, impede que percebamos o que está acontecendo conosco e que reajamos a isto.
    Por exemplo, falando de mim mesma: Tenho medo das hipoglicemias? Pois ando com um saquinho de balas bem doces na bolsa. Nao quero mais ter problemas estomacais? Faco uma dieta saudável, sem escapadinhas. Receio me perder na rua? (sou terrívelmente despistada) Bom, esta cidade está cheia de gente a quem perguntar e de táxis que posso pegar e que me levarao sem problemas ao meu destino. Ainda nao tenho contatos para conseguir um espaco como cronista? Pois tenho meus blogs e a oportunidade de publicar as minhas crônicas na Folha de Londrina e deste jeito consigo que muita gente as leia... E assim por diante. Para cada coisa negativa tem que fazer o esforco de encontrar a contrapartida positiva. É como aquele jogo de Pollyanna e, por mais ingênuo que pareca, posso afirmar que sim funciona e que pode chegar a se transformar num estilo de vida que nos levará a descobrir que existe nem que seja uma gota de felicidade em tudo que nos acontece. Nos obriga a manter a mente aberta e disposta para uma dinâmica que pode tirar proveito de todas as situacoes. Pode ser que no comeco nos custe um pouco e que a gente se sinta meio boba, travada, sem criatividade, mas com o tempo e a prática acabará resultando-nos a coisa mais natural do mundo e veremos que todo o esforco e a perseveranca valeram a pena. Nao é que nunca mais vamos nos sentir infelizes ou frustrados, porém, pelo menos seremos capazes de encontrar uma faísca de alegria mesmo no meio das mais escuras trevas. E isso é algo que nao tem preco.

sábado, 5 de julho de 2014

"Com quem pasamos mais tempo"

    Nesta altura do campeonato me pergunto quem sao os derrotados, e inclusive estou pensando em escrever sobre isso, porque nós, os chilenos, aprendimos uma grande licao à respeito neste mundial. A selecao que retornou eliminada para o Chile nao era nem de longe um gupo de derrotados, mas um exército de guerreiros -especialmente Gary Medel, diante de quem tiro o chapéu- que eiminou o campeao do mundo e deixou de joelhos ao eterno fantasme verde-amarelo, ao seu grande rival: o Brasil. Mas nao foi somente porque deram trabalho, mas pela sua atitude aguerrida, pela sua entrega sem reservas, sem medo... Nunca vi um time tao orgulhoso de usar e brigar pela camiseta de seu país... Foram merecidamente recebidos como heróis, porque sao um exemplo e uma mostra do que é este país tao longo e estreito, tal cheio de dificuldades, de sonhos, de batalhas e desafíos... Porém sempre vencedor, sempre com a cabeca erguida, sempre lutando. Esta é uma terra cheia de heróis que nao se rendem e estes onze atletas sao a viva mostra disto... Como estouorgulhosa de ser chilena!
    E depois deste desabafo e deste enorme sorriso emocionado em minha cara, depois de ter chorado junto com o Gary Medel -que foi quem trouxe as lágrimas aos meus olhos com seu próprio choro desconsolado- aqui vai  crônica desta semana, ainda com gosto de mundial.


    Gosto de bater papo comigo mesma, dar-me puxoes de orelha, conselhos e elogiar-me. Gosto de andar por aí e prestar atencao no que penso, no que sinto e percebo. Gosto de me apoiar, de me consolar, de me dar ânimo e de perdoar a mim mesma as quedas e cagadas. Adoro respirar fundo, virar apágina e comecar de novo. Todas as vezes que for preciso. Nao me importo em admitir as minhas fraquezas e fracassos, apesar do que isto dói. Gosto de ficar um tempo acordada depois que desligo a luz, olhando para as luzes dos prédios vizinhos e lembrando como foi o dia. Às vezes analiso algo que me incomoda, outras rezo pelas nossas necessidades; umas poucas só fico ali, sentindo meu corpo deitado na cama, percebendo como vai relaxando, como se mexe lá dentro, como uma agradável modorra vai tomando conta ele... Às vezes, perceber meu corpo me angustia um pouco porque nao confio muito nele -probávelmente porque estou dando-me conta de que está envelhecendo e tornando-se mais frágil- Sempre me ronda aquela sensacao de que, apesar de estar saudável, ele pode me fazer passar algum susto inesperado... Porém, a maior parte das vezes o sinto feliz, ativo, guerreiro, criativo, e gosto de conversar com ele e cuidá-lo.
    A gente sempre tem que se voltar para si mesmo e se consultar, se analisar, tentar se compreender, se aceitar e se perdoar. Tem que manter o diálogo, assinar acordos, instaurar a paz, porque, no fim das contas, é com nós mesmos com quem passamos mais tempo ao longo das nossas vidas.

sábado, 28 de junho de 2014

"O dom da gratidao"

    E hoje é o dia do jogo do Chile com o Brasil... Mue coracao está dividido!... É claro que quero que o Chile ganhe, porém, se isto chega a acontecer, vou ficar triste pelo Brasil. Bom, na verdade, por mais que eu torca por um time, sempre me entristeco pelos derrotados, pois me ponho em seu lugar e deve ser muito duro... Hoje o dia está deslumbrante (espero que isto seja um bom sinal!) mas terrívelmente frío. Bom poder ficar em casa, quentinha, bebendo um chazinho de hortela. Inspirador...
    E aproveitando isto, aqui vai a da semana, que nao só pode cair que nem luva em vocês, mas sobretudo em mim mesma neste momento. Curta e grossa.

    Que histórias carregam as pessoas!... A gente cruza com elas em todo lugar e nem imagina o que podem estar vivendo, ou o que já viveram, como e por quê sao do jeito que sao, por que agem como o fazem. É que às vezes nos centramos tanto em nós mesmos, em nossas dificuldades e dores, que perdemos a capacidade de perceber que existem outras pessoas no mundo com muitos mais problemas, com dramas e traumas enormes que nós talvez nem seríamos capazes de suportar. Estamos tao pendentes do que nos acontece -por vezes fazendo verdadeiras tormentas num copo d'água- e tao cheios de auto-compaixao e desejo de atencao, que nao temos a humildade nem o desprendimento de sair do nosso mundo egocéntrico e perceber -aceitar- que, na verdade, o drama nao é tao grande assim, que temos opcoes, que temos saúde, casa, comida na mesa, família, emprego; que estamos reclamando de barriga cheia. Maltratamos e injusticamos sem pensar duas vezes porque nos sentimos maltratados e injusticados pela vida, sem pensar que aquela mulher pela qual acabamos de passar talvez daria tudo por ter a nossa vida, os nossos"problemas" e "necessidades".
   Sempre temos que comparar, temos que conhecer outras histórias, mas nao para nos resignar, e sim para nao perder o dom da gratidao.

sábado, 21 de junho de 2014

"O box número 6"

    E bom, parece que finalmente o inverno chegou, e chegou mordido, porque hoje está um frío de matar. Até vou ter que botar as capinhas nas cadelinhas quando formos passear!... Acho que teremos poucos días bonitos à partir de agora, porque anunciaram muita chuva, o que é bom porque este ano teve seca em algumas regioes e as colheitas sofreram bastante. Também vai ser bom para melhorar a qualidade do ar, que está péssima. A neblina destes últimos dias tem ajudado bastante, mas ela nao vai durar para sempre. Afinal, nao estamos em Londres!... E depois, quando tenhamos um dia de sol, vai ser espetacular, entao estes dias nublados e chuvosos vao valer a pena. O sol será aguardado com ânsias e recebido com alegría, assim como a chuva, apesar dela ser meio chata.
    Eu tenho a sorte e a béncao de nao ter que sair para trabalhar (agora sou uma respetável senhora aposentada) e de poder ficar quentinha no apartamento. Só saio para passear com as minhas cadelinhas e para fazer as compras, mas depois disso posso ficar aqui escrevendo, escutando música ou assistindo tevê, cozinhando, brincando com as "meninas", preparado uma gostosa sopa para a minha filha que chega meio congelada do trabalho... A vida que pedi a Deus?... Essa mesma.
    E aproveitando que o vizinho parou de me enouquecer com a sua furadeira (está trocando o piso ou algo parecido) aqui vai a crônica da semana:


    Quando tive de fazer o tratamento de quinesioterapia por causa da dor no pescoco, devia descer até o subterráneo do prédio de consultas, onde atendíam numa grande sala pintada de  um horrível cor-de-rosa, na qual estava sempre tocando  música de uma emissora que só botava cancoes dos 60, 70, 80... Nas paredes havia uns quadrinhos ingênuos, artesanais, macas forradas com papel, cadeiras velhas e desconfortáveis, aparelhos jurássicos e barulhentos que rodavam de um lado para outro, diligentemente empurrados pelo quinesiologista chefe e seus ajudantes, a maioría alunos em estágio. Era um ambiente meio decrépito, mas isto era compensado pela atencao rápida, eficiente e calorosa dos encarregados. A gente era prontamente recebida com um alegre sorriso e um beijo, e conduzida até o lugar de tratamento em meio a uma conversa leve e animada. Era um ótimo comeco, considerando a dor que a gente podia chegar a sentir.
    A grande sala tinha sido sub-dividida  em uns 10 ou 15 boxes de madeira fina, pintados de verde ou azul petróleo, e continham uma maca, uma cadeira e um cabideiro. A privacidade era garantida por uma cortina vermelha, mas isso, na verdade, era mais uma forma de dizer, porque na verdade, a gente podia escutar tudo que acontecia em volta.
    Meu box era o número 6 e através das finas divisoes de madeira eu acabava ficando por dentro de muita coisa enquanto suportava o calor ou os raios laser de algum aparelho pre-histórico em meu pescoco... E como tinha histórias!... Os pacientes, em sua maioria de idade e de lugares distantes, confiavam aos profissionais todas as suas secretas dores e dificuldades, nao somente aquelas físicas pelas quais tinham chego até alí, mas também aquelas do coracao, do trabalho, da família, das necessidades. Os grandes e pequenos dramas de suas vidas eram também "atendidos" e consolados naqueles boxes... E eu escutava e aprendia, meditava, comparava, me comovía, sorria... Às vezes ria escutando os roncos estentóreos do meu vizinho, que trabalhava à noite e por isso dormia durante o tratamento. Outras me preocupava pela situacao do pai hospitalizado da vizinha do outro lado. Algumas admirava-me a coragem e o otimismo de alguém a quem tinha visto chegar em cadeira de rodas ou caminhando dificultosamente com muletas... Cada um tinha a sua história, a sua experiência para contar, seus personagens, seus pequenos sucessos e desalentadores frecassos ou decepcoes, suas alegrias e recompensas... Eram únicos, mas mesmo assim tinham algo em comum, que sempre me emocionava: a sua coragem e fé diante de suas vidas sacrificadas e cheias de empecilhos e tao poucas alegrias, com seus dilemas, suas esperancas, seus sonhos, mas acima de tudo, a sua persistência à prova de tudo...
    Assim, cada dia daquele mes em que estive indo fazer o tratamento, nao só saía de lá com o pescoco um pouco melhor, mas também com uma valiosa licao aprendida e com o coracao grato por tudo que tinha o privilégio de possuir, material e espiritualmente...
    Sinceramente, após escutar todos aqueles relatos através das paredes do box n° 6, teria sentido vergonha de abrir a boca para reclamar de qualquer coisa.

sábado, 14 de junho de 2014

"Cerejeiras"

    Mais animada impossível depois do triunfo do Chile em seu primeiro jogo neste mundial!... No entanto, o que mais me comoveu e me encheu de orgulho nao foram só esses três gols belíssimos, mas o comportamento maravilhoso dos torcedores, que encheram o estádio de Cuiabá com as suas vozes cantando nosso hino nacional. Rostos inspirados, olhos fechados, expressoes de verdadeira paixao e amor, lágrimas nas faces pintadas de vermelho, branco e azul.... E apesar de que a gravacao acabou -antes do final, porque nestes eventos nao tocam os hinos completos- os torcedores continuaram a cantar a plenos pulmoes e todos tiveram que esperar a que acabaram de entoar o hino para comecar a tocar o de Austrália... Me caíram as lágrimas de orgulho, de emocao, de amor pelo meu país e meus compatriotas enamorados e cheios de fervor, sem medo de demonstrá-lo diante do mundo todo.
    Com certeza, algo para ser lembrado para sempre deste mundial. Poderemos perder, mas essa paixao que vi ontem ninguém nos tira. Isso é o que nos faz grandes, vencedores, memoráveis.
    E meio afónica e ainda emocionada, aqui vai a crônica da semana.


    Lembro do ano passado, quando a primavera já estava farejando em cada esquina, rebentando silenciosamente -por enquanto- em cada galho pelado e seco. Estava nos amanheceres mais cedo, nas vitrines e nas bandeiras que anunciavam o aniversário da pátria. Todos andávamos por aí com uma coceguinha no peito e um sorriso radiante por qualquier motivo. Os encontros eram mais efusivos, as conversas mais animadas, o coracao parecia que transbordava de simpatía e caridade... Realmente, esta estacao possui algo de mágico, transformador e refrescsante que nos enche de esperanca, de novos sonhos, e lhe dá um empurrao de vitalidade e otimismo a qualquer projeto.
    No entanto, as primeiras que dao o aviso da chegada da primavera sao, sem dúvida, as cerejeiras. Quando ainda as temperaturas nao se decidem a subir e nos fazem más jogadas e as nuvens se juntam para esconder o sol com uma frequência desalentadora, os galhos das cerejeiras já comecam e se encher de brotos, sem alarde, quietinhas, e de repente, uma manha somos surpreendidos pelas suas copas carregadas de pequenas e cheirosas flôres cor-de rosa em todo lugar. É feito um tapa de cheio na cara do agonizante inverno e um sarro aos nossos gorros, casacos e cachecóis.
    Assim curtia eu a vista das cerejeiras por todo canto do parque pelo qual passava à caminho do mercado. Era quase que cinematográfico... Cheguei na esquina com meu carrinho e parei para esperar a luz verde junto de um barulhento grupo de estudantes. Atravessamos e, ao passar pelo costado do prédio da universidade, onde tem um pseudo-estacionamento, naquele dia vazio, me deparei com uma outra cerejeira. Só que esta encontrava-se caída sobre a grade do pátio. Segurava-se à terra somente por um fino pedaco de tronco torto. Diminui o passo para contemplá-lo. Certamente, algum motorista desavisado tinha esbarrado com ela ao estacionar, quase que arrancando-a de raíz. Nessas condicoes, a árvore poderia ter morrido, teria sido o mais lógico. Porém, este exemplar tinha decidido nao fazê-lo e ali estava, grande, forte, recostado sobre a grade, agarrado ao chao por um pedaco ínfimo de tronco, lotado de flôres, celebrando a chegada da primavera como todos os demais, lindo, inteiro, corajoso, teimoso... Entao pensei que nós deveríamos ser -e às vezes somos- feito aquela cerejeira que, mesmo caída e em condicoes precárias, era capaz de florecer e nos brindar o espetáculo da sua beleza e seu perfume. Porque estar caído ou em condicoes adversas nao significa que estejamos vencidos, que nao tenhamos os medios, a criatividade e a vontade para nos levantar e seguir adiante, para realizar nosso cometido. Todas as feridas se curam, com ou sem ajuda, e o pouco que temos pode ser muito, pode ser tudo. Se nao paramos para nos lamentar e culpar o mundo pelas nossas quedas, poderemos em breve retomar  caminho, continuar o projeto e chegar à meta. Nossas flôres podem ser pequenas, porém, incontáveis, e podem oferecer um espetáculo que alegre, console e anime o coracao dos homens.

sábado, 7 de junho de 2014

"Outras paisagens"

    Se a cordilheira já estava bela com as primeiras nevascas, agora está, simplesmente, de tirar o fôlego. Faz um frio tremendo e no sul está ficando a cagada, mas mesmo assim, eu fico por longo tempo sentada no sofá da sala olhando pela janela para ess,a visao deslumbrante, agradecendo a Deus por estar aqui, agora, e pelo privilégio de ter este quadro desde todas as minhas janelas, pois é algo que meu coracao desejava fazia muito, muito tempo. Esta mole rochosa, hoje coberta de branco imaculado, era do que mais tinha saudades, pois é uma espécie de farol, de guia, de inspiracao, de convite à luta, à renovacao, à vontade e persistência, à paz, à  certeza.
    E fugindo por alguns momentos do seu feitico poético e feroz, sento aqui para escrever a crônica da semana. Quem sabe essa brancura toda nao me inspire um outro conto.... Já tenho algumas imagens e frases adejando em minha cabeca...


    "O tempo passa", "O tempo nao pára". "A gente nao fica mais jovem"... E como temos medo destas afirmacoes!... Tanto, que cada hora vemos pessoas que fazem as coisas mais absurdas e redicais para evitar, de algum jeito, que esta lei da vida se cumpra. Eu sei que ultimamente ando escrevendo muito sobre o tema da chegada da velhice, porque nao se pode negar que é algo realmente chocante e bastante desanimador ver como a gente vai se enchendo de rugas, de cabelos brancos, de achaques e flacideces, mas acho que virar adicta a cirurgias, dietas, exercícios e modas estrambóticas para tentar deter este processo é algo inútil e humilhante, é o pior e mais triste dos enganos. Porque a verdade é, exatamente, o que estas três primeiras frases dizem e nao há nada nem ninguém capaz de mudá-lo. Nao existe tratamento, cirurgia ou moda que nos dê mais um segundo de tempo. O melhor cirurgiao plástico nao conseguiria, por mais que nos estique a cara, erga nossos seios e elimine ou aumente as curvas do nosso corpo, que ele rejuvenesca, pare de se deteriorar e se encher de limitacoes. Por fora poderemos nos impressionar com o aspecto destas pessoas que acudem a estes subterfúgios, mas a verdade é que, biológicamente, elas continuam envelhecendo, se aproximando da morte.
    A velhice pode nao ser o período físicamente mais agradável da nossa existência, mas nao por isso temos de tirar-lhe a sua dignidade e disfarcá-lo com truques inúteis que, às vezes, têm resultados desastrosos, que beiram a monstruosidade. Ninguém quer se ver enrugada e flácida, é próprio da nossa vaidade e do nosso medo da morte, mas este é o processo natural. A gente nao anda por aí pintando de verde as folhas das árvores no outono, nao é mesmo? Sabemos que é um ciclo que precisa se cumprir e que elas voltarao a se encher de folhagem quando a primavera chegar, entao nao tem drama, o aceitamos como um fato normal... Entao, por que nao podemos aceitar com a mesma naturalidade nosso próprio final de primavera? Tudo tem beleza e feiúra, vantagens e desvantagens, pros e contras, e é assim também em cada fase da nossa existência. A velhice tem desvantagens físicas, porém, tem enormes vantagens psicológicas e espirituais. Precisamos aceitar com serenidade e dignidade que nao podemos lutar contra a passagem do tempo. Esta é uma batalha perdida... Entao, deixemos que venha como fazem as árvores, deixemos que transcorra e leve embora o que deve levar. Permitamos que deixe as suas marcas e avisos. Usemo-lo bem, ao nosso favor, sejamos feito um baú que, ao invés de ir-se esvaziando, vai se enchendo, se colmando e ao mesmo tempo ficando leve, desapegando-se e olhando para outras paisagens, sem medo de encarar o espelho e seu reflexo de despedida.