sábado, 12 de abril de 2014

"Detalhes técnicos"

    Parece que finalmente a terra decidiu ficar quieta um pouco, pelo menos aqui, entao podemos dormir um pouco mais tranquilos. Teve um tremorzinho ou dois, mas nada para se alarmar. Este prédio é novo e foi construido com todas as novas normas anti terremotos, entao o que mais acontece é que balancamos adoidados. Tanto, que às vezes achamos que estamos passando mal -tipo queda de pressao ou coisa parecida- e demoramos um pouco para perceber que nao é nada disso e que, na verdade, está tremendo.  Nao é a coisa mais agradável do mundo, mas é isso mesmo e sempre será, entao tem que se conformar e confiar que as construcoes resistirao, ou que os tremores nao serao tao violentos... Porém, todo o resto neste país compensa as chacoalhadas... Eu sei que estou ficando chatinha ao respeito, mas é que depois  de 30 anos longe da terra natal, o único que se pode sentir por ela é amor, apesar de qualquer coisa. Sigam meu conselho, voltem, sempre voltem. Melhor, tentem nao ir nunca embora, pelo meno nao para sempre. Nao tem nada como a pátria, como bem dizia meu pai.
    E ainda estremecida, porém confiante, aqui vai a crônica de hoje.  Vou ver se esta semana escrevo um novo conto e o posto semana que vem.



    Sempre fui uma pessoa que encontra saída para os problemas e me sinto muito contente e orgulhosa disto, pois é deste jeito que a gente se transforma numa autêntica lutadora e numa vencedora. Às vezes posso demorar um pouco para entender, aceitar  a briga e encontrar a solucao para atingir meu objetivo, mas nunca desisto. Sempre acabam me ocorrendo vias alternativas porque acredito firmemente que em todas as situacoes -menos na morte, como dizia a minha avó- há portas que abrir, existem desvios, caminhos inesperados e engenhosos que podem ajudar a gente a sair de momentos problemáticos. Basta abrir-se para estas possibilidades/oportunidades, acreditar que sim existem e estao à nossa disposicao se escolhemos lutar por aquilo que desejamos ou sair de um conflito. É a única forma de se acostumar a enxergá-las e utilizá-las. Acreditar que se pode é o primeiro passo para a vitória. Trata-se de um tipo de disposicao que precisamos aprender a ter e usar desde pequenos diante dos acontecimentos desfavoráveis. Todos temos esta disposicao, basta botá-la para funcionar. É claro que é muito mais fácil  sentar-se e lamentar a má sorte, a crueldade da vida e a indiferência dos outros, mas, na verdade, esta atitude nao nos leva a lugar algúm a nao ser à auto-piedade, que é um dos piores estados de espírito que se pode ter. Acreditem, eu sei bem. Presentar batalha é sempre mais difícil, mas no fim, compensa muito mais do que ficar esperando a piedade dos demais e botar a culpa neles se as coisas nao dao certo ou se nao ajudam como esperávamos. A gente tem que se valer, precisa querer lutar por si mesma, precisa querer vencer. Podemos passar por momentos de escuridao e desalento, é normal, porém, a graca é conseguir sair deles, acender a luz, abrir a porta, levantar-se e olhar para frente, reencontrar o caminho, sem medo de errar, porque o erro é permitido, já que sempre se pode voltar atrás. Agora, desistir... Isso nao é uma opcao.
    Se nao tenho um computador ainda, escrevo à mao, como fazia antes, até que possa comprar um. O importante é nao perder as inspiracoes, pois elas sao um presente divino e irrepetível.Se nao consegui aquele emprego, trabalho numa outra coisa até aparecer algo melhor, mas nao fico a chorar e me desesperar. Meu namorado foi uma tremenda desilusao? Mando ele passear e aproveito a liberdade para me divertir e manter o coracao aberto. Viro a página. Estou com pouca grana? Aperto o cinto e poupo, sabendo que este sacrifício valerá a pena e me manterá tranquila e segura. Fora isso, saibam que uma vida modesta pode ensinar-nos muita coisa à respeito de valorizar o que é realmente importante para a verdadeira felicidade.
    Nao podemos perder tempo na vida lamentando-nos e deixando-nos derrotar por estes "detalhes técnicos!".
    

sábado, 5 de abril de 2014

"O zorzal"

    Bom, estou descobrindo que, entre um chacoalhao e outro, ainda é possível se inspirar e escrever, assim como cozinhar, varrer, sair para passear com as cadelinhas e fazer todas as atividades de um dia normal. Porque nao se pode parar, já que a vida continua apesar de tudo. Infelizmente -e apesar do que alguns idiotas andam dizendo por aí- nao se pode predizer quando virá o próximo tremor, entao tem que seguir em frente, pois nao podemos deter a nossa existência à espera da próxima movimentacao da terra. Os chilenos somos corajosos e teimosos, ganhamos todas, nos erguemos sempre, por isso continuamos, com fé e otimismo; levantamos, vamos trabalhar, cuidamos das criancas, da casa, do negócio, da empresa... É deste jeito que se aprende e se cresce, desafiando a adversidade e dobrando-lhe a mao, por isso este é um grande país, mesmo se eu sou suspeita para falar. Temos uns terremotos e passamos uns tremendos sustos? Sim, porém nada nos faz desejar mudar de terra porque amamos esta cordilheira, este mar, e estes sapateados do chao que nos deixam com o coracao na mao. É que tudo mais neste país é maravilhoso. E como vocês sabem, ninguém é perfeito, entao podemos perdoá-lhe este "defeito" à nossa pátria. Nao lhe perdoamos coisa pior a quem amamos? Entao...
    E enquanto a terra permanece sem se mexer (pelo menos aqui na zona central, porque no norte a coisa parece batedeira) aqui vai a crônica desta semana:


    Sempre que passo sob uma árvore e escuto o inconfundive canto de um zorzal (o equivalente ao sabiá brasileiro) ergo a cabeca e o procuro com o olhar, sorrindo. Porque este passarinho féio, de penugem marrom, olhos esbugalhados e enorme bico amarelo, patas compridas e desengoncadas e movimentos sempre nervosos e nada graciosos, é muito especial para mim. Seu trinado é como a voz de um anjo na escuridao, o som da salvacao, da realidade palpável e amigável.
    Lembro perfeitamente a primeira vez em minha vida em que percebi seu canto: quando tinha doze anos e peguei caxumba. Tive uma febre altíssima, que me mantinha jogada na cama, sem vontade nem de beber água e cochilando o dia todo. A coitada da minha mae chegava do trabalho e ia ficar comigo, tomava a minha temperatura, me fazia engolir um pouco de soupa ou gelatina, ligava para o médico, botava compressas frias na minha testa e trazia a tevê para meu quarto para que eu me distraísse um pouco. Passou uma semana dormindo nos pés da minha cama, toda torta e agasalhada apenas com um cobertor, pois como à noite subia a minha temperatura, de repente eu era tomada por uns delírios que me deixavam apavorada; como aquele de que o empregado de uma vizinha estava espionando-me pela fresta da persiana com uns olhos vermelhos e murmurando palavras ininteligíveis. Na verdade, o coitado nao era mais do que um homenzinho franzino, com cara de rato, dentes tortos e cabelo oleoso, baixinho e encolhido, que vestia sempre de azul e caminhava como se alguém o estivesse perseguindo. Era verdade que tinha algo de muito sinistro, mas nao acredito que fosse lhe ocorrer ficar na minha janela para me amedrontar.
    Mas a coisa é que eu fiquei obcecada com esse assunto de que ele estava ali, observando-me, esperando o momento em que eu estivesse sozinha no quarto para irromper e me fazer algo muito ruim... Coisas de crianca com quarenta graus de febre... Mas como nao sossegava e chorava de medo quando o céu escurecia, a minha mae decidiu ir dormir nos pés da minha cama. No entanto, e apesar do alívio  que a sua presenca e seu calor me provocavam - mesmo com o desconforto de ter de me encolher para que ela coubesse- meu terror continuava e mal conseguia cochilar por alguns minutos, com os olhos pregados na fresta da minha janela, onde continuava vendo a silhueta daquele homem maligno... Sentia a noite transcorrer com uma lentidao angustiante, rodeada por aquele silêncio esmagador que parecia me sufocar, e me cobria até a cabeca para que seus dedos pegajosos nao me alcancassem, rezando para que acabasse logo e a luz do sol me trouxesse o alívio...
    E uma manha, ao longe, talvez nos galhos de uma árvore na rua, escutei um gorjéio, alto e claro, imperioso feito uma diana chamando a madrugada. Era poderoso e ao mesmo tempo doce, melodioso, e parecia atravessar a nascente claridade feito uma flecha e entrar direto em meu quarto, meus ouvidos, em meu coracao, trazendo-me uma maravilhosa sensacao de alívio, de seguranca, mas principalmente, de realidade. Era o canto do zorzal... E, efetivamente, pouco depois, podia ver os primeiros raios de sol levar embora aquela sombra na minha janela. O quarto clareava e já podia distinguir as coisas que conhecia tao bem e que me eram tao caras: a escrivaninha, a máquina de escrever, os cartazes, as plantas... A minha mae acordava também, me perguntava como tinha amanhecido, media a minha temperatutra e iba ao banheiro se preparar para ir ao trabalho. Pouco depois passavam meu pai e a minha irma para saber como eu estava, chegava a empregada e a casa se enchia com o aroma do café, as torradas e os ovos mexidos com bacon. Eu continuava na minha cama, relaxada e confortável, segura. E de repente, a partir daquele dia, nunca mais tive medo de que a noite chegasse, porque agora tinha certeza de que o zorzal estaria ali, cantando para afugentar meus pesadelos e anunciando a chegada de um novo dia.
    Por isso sempre presto muita atencao quando comeca a amanhecer, pois ainda preciso escutar, entre a algazarra dos pardais, os trinados do zorzal nos galhos das árvores, porque eles me trazem o novo dia, as novas expectativas e promessas, o ânimo, a coragem, o otimismo. Suas notas melodiosas e poderosas afastam todo mal de mim.
    Quem precisa de um despertador mecânico quando se tem um zorzal na árvore vizinha?

domingo, 30 de março de 2014

"Os objetos de Neruda"

    Sim, as temperaturas estao afirmando que o outono chegou, que as folhas ficarao amarelas e cairao para formar um tapete nas calcadas e jardins, que teremos de comecar a tirar do armário as roupas grossas e as botas, que o chá gelado de menta será uma agradável e refrescante lembranca porque agora sentaremos no sofá com uma xícara fumegante desta infusao. Vem o tempo das sopas, os aquecedores, os xales, cachecóis e luvas, das leituras tranquilas, da água caindo mansa ou aos baldes do céu cinza, dos banhos quentes... Tempo de lar, de reflexao lenta, de conversas, de saudades do verao. Nos recolhemos para nos preparar para o próximo que, com certeza, será ainda melhor. Entonces, vamos curtir este frio e manter o coracao quente e acolhedor.
    E sentadinha aqui, com uma xícara de chá e algumas bolachas, aqui vai a da semana. Ontem estava com preguica (primeiro dia de frio de verdade) entao deixei para postar hoje.


    Tem uma poesia de Pablo Neruda dedicada aos objetos e a sua importância nas vidas de todos nós e, especialmente, na dele. Como todas as suas outras odes às coisas simples e banais, é genial, te pega pela "domesticidade" e quase vulgaridade das descricoes que, mesmo assim, estao cheias de lirismo, daquele olhar sobrenatural que somente um poeta pode ter das coisas mais comuns. Neruda nao escreve tao somente sobre a mulher amada, sobre a terra, sobre a luta de classes e a beleza das paisagens chilenas (especialmente da cidade onde ele escolheu morar, Valparaíso), mas também sobre a construcao da casa, a cebola, os brinquedos, a sopa... Será que ele enxergava todas estas coisas tao básicas desse jeito mesmo? Sentia os versos fluírem tao liricamente olhando para uma cebola como quando contemplava à sua amada? Caminhava pela sua casa, olhava pelas janelas para o mar, sentava em sua escrivaninha, observava o mundo desde seu coracao e escrevia escrevia, sempre escrevia. Será que perguntava a si mesmo se as suas poesias teríam algum futuro? Sonhava que todos as leriam e se identificariam com elas? Tinha medo de produzir para ninguém, de nunca publicar nada, de que só ele mesmo, sua família e seus amigos achassem que tinha talento?... Suponho que todos os artistas se fazem estas perguntas alguma vez, mas apesar de todas as dúvidas e insegurancas, continúam a produzir, a criar, a cuspir o que levam dentro porque sabem de alguma forma que tudo aquilo nao é para ficar trancado dentro deles mesmos. Alguém precisa conhecer. Necessitam que a sua obra se identifique com a vida e as experiências das pessoas ao seu redor, senao, seu trabalho nao faz sentido. Quem escreveria versos sobre facas, cadeiras, pioes, vassouras, panelas, colheres de pao, toalhas de mesa de borracha...? Pois um poeta genial que sentia que tudo tinha vida, falava, estava profundamente ligado ao homem, que fazia parte da sua história, das suas experiências, do seu aprendizado.
    Os objetos chegam às nossas maos -comprados ou dados de presente, necessários ou nao- crescem junto conosco e terminam adquirindo profundos e às vezes surpreendentes significados nas diferentes etapas da nossa existência, por isso às vezes os conservamos cuidadosamente e um dia, ao abrir um baú e rencontrá-los, nos enchemos de emocoes e nos sentimos transportados até a época em que tiveram seu significado especial. Sao feito uma viagem no tempo do nosso coracao.
    Nao tem que ser "quinquilheira" nem acumuladora, mas alguns objetos, por mais banais ou exóticos que parecam, podem ser portas para a felicidade, a reflexao e a conciliacao.

sábado, 22 de março de 2014

"Uma contribuicao para os pobres"

    Realmente parece que este verao está querendo ficar o máximo possível. Hoje está um calor de matar e todo mundo anda por aí se abanando, inclusive quando sopra o vento... Os manifestantes da marcha anunciada para hoje à tarde vao cozinhar nas ruas, coitados. Só espero que o calor nao os irrite ao ponto de comecarem a fazer cagadas, como sempre acontece quando tem marcha contra qualquer coisa. Este país é adorável e incomparável - com a pequena ressalva dos terremotos, é claro, mas ninguém é perfeito- no entanto, como em todo lugar, tem gente que, sinceramente, se sumisse da face da terra, nao faria falta nenhuma, pois só se dedica a fazer o mal, a destruir, a violentar, vandalizar, perseguir e machucar os outros de todas as formas possíveis... Essas pessoas nao deveriam ter cabida em nenhum país. Deveríam criar seu próprio território independente e ali se dedicar a se matarem uns aos outros, o que seria bem mais saudável... Tomara que o novo governo se ligue com estes imbecis.
    Como podem perceber, eu também estou no espírito do protesto, mas escrever é um santo remédio para isto. Assim que pego a caneta e o caderno volto a ser a pessoa amável e pacífica de sempre, entao nao fiquem preocupados. E para acabar com este clima de motim, aqui vai a crônica desta semana: uma história verdadeira que me deixou muito triste, mas também me ensinou o que a nossa interferência em certas circunstâncias poderia conseguir.


    Quando o vi pela primeira vez estava no meio da calcada pedindo "uma contribuicao para os pobres" às pessoas que passavam rumo aos seus trabalhos. Nao estava tao mal vestido: jeans, camisa, blusa de la e uma parca bastante nova, botinas ainda engraxadas, cabelos curtos, barba feita. Falava bem, com um tom de voz agradável e educado, bem diferente do resto da turma de alcoólatras que o acompanhava e se amontoava desordenadamente nos bancos e canteiros do passeio. Nao parecia ser o líder deles, mas era o único que conseguia se aproximar das pessoas e falar com elas sem provocar-lhes repulsao o medo, tanto que muitos dos que abordava paravam e remexiam em seus bolsos ou moedeiros para dar-lhe algumas moedas, que ele agradecia polidamente, inclusive desejando um bom dia ao benfeitor. A mim, ele conquistou imediatamente, sobretudo pela notória diferenca que existia entre ele e os outros... Quem era? Como tinha chego ali? Qual seria a sua história? Que tinha levado ele a se misturar com com um bando de mendigos bêbados que perturbavam e sujavam o passeio?... A curiosidade me roia enquanto lhe dava algumas moedas, mas achei que seria pouco delicado comecar a lhe perguntar sobre a sua vida a primeira vez que nos encontrávamos, entao só lhe desejei um bom dia também e me afastei, esperando que no dia seguinte estivesse ali para que pudéssemos conversar por alguns minutos.
    E, efetivamente, na manha seguinte estava no mesmo lugar, pedindo a "contribuicao" para as pessoas, simpático e gentil. Eu tinha comprado alguns paes e um pouco de presunto e dei para ele no lugar do dinheiro. Ele me fitou por alguns segundos, com uns olhos meio esverdeados e brilhantes que por algum motivo me chegaram à alma, cheios de mistério e tristeza, e pegou a sacola que lhe oferecia com um movimento de inesperada gentileza.
    -Muito obrigado, minha dama. Que Deus lhe pague.- murmurou, sorrindo. Em seguida, se virou para os demais e exclamou: -Chegou o café da manha, rapaziada!..- e de repente ficou assustadoramente parecido com eles.
     A turma se atirou sobre a sacola que pendia da sua mao e num segundo a rasgaram e comecaram a devorar os paes com presunto. Os cachorros também se revolucionaram e comecaram a latir e a babar ao redor deles, recebendo algumas migalhas que brigavam por engolir. O homem nao pegou nenhum dos sanduiches. Virou-se novamente para mim e fez uma pequena reverência, repetindo com a sua oz aveludada:
     -Obrigado, minha daminha, que Deus lhe pague.
    Eu sorri e murmurei qualquer coisa, sentindo-me estúpidamente tímida de repente, e comecei a me afastar, sabendo que acabara de perder a oportunidade de conversar um pouco e fazer-lhe algumas perguntas que acalmariam a minha crescente curiosidade. Mas tudo bem, com  certeza também estaria ali amanha.
    No entanto, todas as vezes que a gente se encontrou, ao longo de quatro ou cinco meses aproximadamente, sempre tinha alguma coisa que me impedia de ficar e entabular uma conversa mais "pessoal" com ele. Uns escrúpulos esquisitos tomavam conta de mim e, de alguma forma, me doía querer saber a sua história. Talvez ele nao quisesse me contar. Talvez o considerasse uma intromisao da minha parte, uma falta de respeito. Talvez era suficiente vê-lo ali, naquela situacao, convivendo com essa escória suja e fedida, escandalosa, ladina. Porque, com certeza, ele nao era daquele jeito. Tinha uma nobreza intrínseca, indiscutível, que estava totalmente fora de lugar junto àquela ralé. E ao mesmo tempo em que continuava a me perguntar quem era realmente e quais circunstâncias o tinham arrastado a esta situacao, sentia que nao podia violar seu segredo porque seria como abrir-lhe uma ferida... Entao, me segurei e só o observava de longe.
    Porém, à medida que o tempo foi passando, me transformei em angustiada testemunha da sua triste e inevitável decadência. Primeiro foi a barba descuidada. Depois o cabelo longo e sujo. Logo, a parca e a camisa comecaram a puir e rasgar, a sujeira nas calcas, os buracos nos sapatos e nos cotovelos... Seu andar foi ficando inseguro, a sua voz rouca, as palavras confusas, a pele ressecada e suja. A mao que se estendia para pedir dinheiro ficou escura, de unhas longas e pretas, vítima de um tremor que parecia tomar todo seu corpo, que emagrecia dramaticamente... Comecou a faltar algumas manhas. De longe eu o procurava, mas aparecia cada vez menos e, quando o fazia, mostrava-se alienado, hesitante, imundo, desamparado. Já nao mais falava com as pessoas. Ficava parado ali, como se nao soubesse onde estava, ou perambulava pelos bancos e fontes falando sozinho até que se deixava cair num banco e dormia de qualquer jeito. Ao vê-lo assim, a minha antiga curiosidade se encolhia, pois sabia que agora nao estaria tao disposta a escutar o que ele tinha para contar.
    Um dia nao veio mais. Eu continuava dando moedas para a turma algumas vezes, e de repente me batia aquela vontade de perguntar-lhes pelo seu companheiro, aquele bem educado e simpático, o que falava bonito, mas eles mal sabiam quem eram e o que faziam, entao desisti. Simplesmente, meu amigo tinha sumido.
    Uma enorme tristeza pesava em meu coracao ao lembrar dele, ao rever em minha mente o veloz e dramático processo da sua decadência, da sua entrega a um destino trágico que, com certeza, sabia lhe que aguardava. Será que teria podido sair da história que o tinha trazido até aqui? Teria tido salvacao? Por que tinha desistido? Quao grande podia ser a sua dor, a sua decepcao, seu fracasso, para impedi-lo de tentar mais uma vez? Quem lhe negou uma mao? Quem lhe fechou a porta? Quem nao quis escutá-lo? Como teve a coragem de pular no precipício?... Porque desse pulo só podia resultar a morte, e tenho certeza de que ele sabia disso. E mesmo assim se atirou ao vazío. Quem poderia ou deveria tê-lo salvo? Eu? A sua mae? Seus amigos? Seus filhos, a sua  mulher? Ele mesmo?...
    Sempre fica algo de nós nas acoes daqueles com quem cruzamos, direta ou indiretamente, por isso sempre podemos fazer algo por eles, seja intervindo ou afastando-nos.
 Mas precisamos dar-nos conta se somos esse alguém, e se somos, perceber como agir e quando fazê-lo, ou nao. Porque ficar simplesmente observando nao serve de nada.

sábado, 15 de março de 2014

"Como dizia sao Francisco"

    Parece que agora acabou a timidez do outono e está chegando para se instalar pra valer. Que frio hoje de manha!... Mas é o curso natural das coisas, entao o único que nos resta por fazer é comecar a tirar a roupa mais grossa e botar uma coberta na cama. Já voltarao os dias de sol e calor, mas o frio e a chuva sao necessários, como já disse... Entao, vamos preparar uma xícara de chá bem quentinha e umas torradas com manteiga!
    E para acompanhar este lanche, aqui vai a crônica da semana.


    Passo por eles quase todo dia. De longe os avisto ziguezagueando pelo sendero de areia do parque: o homem mais velho empurrando o carrinho coberto com uma lona verde (pelo qual ainda nao consegui descobrir o que vendem) e a mulher cega ao seu lado, segurando da barra. Sempre vêm conversando animadamente, ela com os olhos verdes perdidos no ar, e o homem com expressao séria, preocupado para que nao tenham nenhum acidente. No meio do percorrido dao uma paradinha e ele senta num banco para descansar por alguns momentos. Ela se ajeita do seu lado, sempre falando, com aquela espécie de sorriso vazio estampado em seu rosto de meia idade, pele clara, cabelos encaracolados e rebeldes que comecam a branquear. Nao sei se sao pai e filha, amigos, marido e mulher ou tao somente sócios, mas gosto de ver como ele cuida dela e a acompanha apesar do evidente esforco que precisa fazer. Tampouco sei em qual rua ou esquina têm seu lugar, nem se ficam ali o dia todo o têm um horário para voltar para  casa... Somente os encontro naquele tramo da minha caminhada. Depois desaparecem no meio da multidao e só voltarei a vê-los amanha, na mesma quadra, no mesmo horário.
    E continua a chamar a minha atencao como estas pessoas -os  trabalhadores pobres, principalmente os ambulantes- se ajudam mutuamente, como sao esforcados e criativos. Sei que a necessidade os empurra a nao desistir, a encarar o frío, o calor, a chuva, a doenca e a intempérie a cada dia, mas do mesmo jeito é comovente observar como sao solidários e se mantêm animados apesar de todas as dificuldades que com certeza enfrentam todo dia. Aquele que tem mais comparte com aquele que nao tem, e quem nao tem um produto, indica ao cliente aquele que o tem para que nao se perca a venda, certo de que o favor lhe será devolvido. E assim acontece, efetivamente. Eu tenho testemunhado.
    Esta gente mantém uma espécie de sociedade paralela na qual uns cuidam dos outos sem receios ou cobrancas, compartilham, socializam, se ajudam como podem. Vendo-os asim, parece que nao cultivam o ciúme nem a inveja uns dos outros, mostrando-se, melhor, unidos num comum e gigantesco esforco por uma melhora geral, pois parece que se um prospera, todos os outros também o farao. Nao tenho nada contra quem tem mais, mas às vezes tenho a sensacao de que estes poderiam aprender alguma coisa daqueles menos afortunados porque, infelizmente, parece que a gente fica egoísta e mesquinho quando vai indo bem e nos comeca a crescer essa sensacao de que se compartimos ou repartimos, a nossa riqueza e nosso poder vao acabar, que vai nos faltar algo em algum momento, que  vamos nos arrepender, que nunca mais vao parar de pedir-nos, que vao se aproveitar da nossa boa vontade... A verdade é que, como dizia sao Francisco, quanto mais se tem, mais a gente se preocupa em preservar, guardar, aumentar, em acumular e esconder para que ninguém venha nos pedir... Porém, o que é que tanto cuidamos, na verdade? A nossa imagem? O poder que as nossas possessoes nos dao? O status que adquirimos? Nossa seguranca material? O futuro da nossa família? Nosso próprio futuro?... E mais uma vez vem à minha cabeca aquela pergunta que há anos me persegue: O que é realmente importante?... E mais, o que é vital para nós como seres humanos? O que temos? O que somos? O que guardamos ou o que damos? Com quanto nos sentiremos seguros e felizes? Existe mesmo esse limite? E saberemos reconhecê-lo e respeitá-lo?...

sábado, 8 de março de 2014

"Vontade de crescer"

    Bom, parece que o outono andou se assustando e decidiu se recolher por mais alguns dias. Deixou o calor regressar e aqui estamos, com todas as janelas abertas, de camiseta regata e bermudas, agora bebendo chá gelado, as cadelinhas esparramadas na sacada aproveitando o ventinho que corre no andar 29... Bom, se o outono se sente meio tímido ainda, nao importa, vamos dar-lhe mais um pouco de tempo para que se prepare e nos regale com aqueles quadros maravilhosos de folhas vermelhas e amarelas. Nós continuamos aqui, firmes, aguardando tudo que vier, inclusive um ou outro tremor de terra... Ah, além de roupas e sapatos muito féios, posso afirmar que os terremotos sao o único defeito deste país maravilhoso!... Mas assim como aturamos algum defeitinho daquele a quem amamos, eu o perdôo.
    Recomendo um chá de hortela bem geladinho nestes dias, é refrescante e saudável, sobretudo quando nos aguarda uma longa jornada diante do computador... Ah, e antes que me esqueca: amanha tem conto novo, e desta vez é completamente meu, como será daqui para frente. Espero que gostem, porque para mi foi um delicioso reencontro com a meu idioma nativo.
    E aqui vai a da semana. Tenho a sensacao de que já a publiquei, ou entao gostei tanto dela que a tinha especialmente guardada, por isso a impressao de que já a postei. Em todo caso, pode ter gente que nao leu ainda, entao...


    Aqui tem uma cidade chamada Valparaíso, que fica no litoral central, e que se caracteriza por ter sido construida sobre um conjunto de morros junto do mar, o que lhe dá uma estrutura totalmente peculiar. Ruas sobem e descem aparentemente sem ordem nem concerto, e as casas e prédios pendem sobre precipícios medonhos. Mais do que ruas, esta cidade tem escadarias sem fim, e paredes pixadas com verdadeiras obras de arte. Ela é patrimônio cultural e é nesta cidade, onde fui passar alguns dias, que escrevi esta crônica, sentada no terraco do hotel, olhando para uma plantinha que assomava pela fresta de uma parede de zinco.
   Aqui as plantas crescem nos lugares mais inusuais e inóspitos, em buracos e paredes, harmonizando com as ladeiras, escadarías e elevadores, neste interminável sobe e desce da paisagem. Nao se atêm mais ao horizontal para soltar raízes, mas estao escalando muros e escadas, terracos, árvores, cresciendo e florescendo apesar do inusual,  das aparentes dificuldades, do descuido das pessoas. Agua? Só a da chuva, um pouco de orvalho, a umidade da neblina, algum balde com a água da faxina. O vento salgado e corrosivo nao as amedronta, os calcinantes raios do sol do verao nao as fazem murchar, e as maos que às vezes as arrancam nao têm poder contra as suas raizes firmemente fincadas... Sao realmente dignas de admiracao.
    Isto me faz pensar que nao se cresce tao somente em solo bem adubado, em terras horizontais e bem planejadas, em vasos e  canteiros bem cuidados dentro de jardins seguros. Também se cresce no vertical, no quebrado, no insuspeitado, no irregular; contra o vento e a escassez de água, apesar da falta de atencao, da intempérie... Se podem soltar raízes em qualquer lugar onde se vislumbre um pedaco de terra, uma oportunidade, nao importa quao pequena pareca, e a esta chance a gente se agarra, neste chao se trabalha, se persiste, se luta para permanecer e dar frutos, para ocupar nosso lugar e fazer a nossa parte.
    Numa aresta da parede de zinco enferrujado, pendurada sobre o precipício de alguma rua, morro abaixo, está este cacho verde e insolente, vigoroso, vicoso, teimoso, aguardando seu momento de florescer. Se pudesse, tomaria conta da parede toda, do quarteirao, da cidade, tanta é a sua vontade de viver e crescer.

sábado, 1 de março de 2014

"Sacadas"

    O verao comeca a se despedir lentamente: manhas mais frias, tardes com vento e nuvens, algumas folhas amarelando nas árvores. Acho que daqui a alguns dias vou ter de acrescentar um cobertor na minha cama... Mas nao estou chateada ou triste, pois cada estacao tem seu encanto. Adoro as ruas forradas de folhas douradas e vermelhas e o dramatismo das árvores nuas, o chá quente, o aquecedor ligado, o cobertor no sofá, as cadelinhas com as suas capinhas de polar, a sopinha na frente da tevê... E depois, tudo floresce de novo e se enche de cor e perfume. O inverno é bom porque gracas a ele aprendemos a apreciar mais a chegada da primavera e do verao. O inverno climático, e às vezes o espiritual, nos prepara para renascer, sempre.
    E com uma xícara de chá ao lado, aqui vai a da semana.



    Num prédio de apartamentos as sacadas tomam o lugar do quintal, mesmo se dramáticamente menores do que estes, e ali -como nos quintais traseiros das casas- se pode descobrir boa parte da história de uma família. Bicicletas -bem engraxadas ou cobertas de pó e ferrugem- varais portáteis que revelam as intimidades de seus moradores, brinquedos, caixas, plantas -vicosas e bem cuidadas ou murchas e amarelas em vasos descascados- jogos de mesa e cadeiras de plástico ou metal, cinzeiros, mensageiros do vento de bambú, vidro ou alumínio, grades para proteger criancas e animais... Em algumas se organizam festas, em outras se lê, se digita, se fala no celular por horas. Algumas reúnem amigos ou criancas que se viram para inventar um mundo de fantasia no qual viver as suas aventuras. Outras possuem pequenas hortas ou primorosos jardins em miniatura. Numas poucas uns cachorros entediados latem para tudo e gatos preguicosos se espreguicam ao sol ou se escondem do calor. Tem algumas com gaiolas de canários ou coelhos (essas sao as excêntricas) e nas mais tristes se amontoam caixas de papelao, colchoes, arranjos florais decrêpitos e restos indefinidos que se enchem de terra em seu abandono.... Nessas sacadas ninguém sai porque viraram paliativos para a falta de espaco, entao nao formam realmente parte da morada. É feito um apêndice feio e lotado de trastes que todo mundo quer esquecer.
    No entanto, outras vezes, as sacadas sao como uma extensao do apartamento, entao os moradores abrem as suas cortinas sem receio - quem sabe até com algo de orgulho- e podemos ver um pouco da sua vida, sua rotina, seus tesouros; podemos escutar as suas vozes e avistar seus rostros e seus corpos, seus movimentos, a interacao entre eles...
    No Brasil, eu costumava espiar pelas janelas das casas quando passava na frente delas, ou entao tentava avistar alguma parte de seus quintais de trás para tentar adivinhar quem eram seus moradres, o que faziam, o que tinham, o que vestiam, como comemoravam as suas festas ou passavam seus finais de semana. Os jardins da frente eram bastante descuidados, sem nenhum paisajismo; um monte de plantas, grama e terra desordenadamente espalhados e cheios de mato e pedras pintadas de branco que em algum momento tentaram definir limites, mas que foram vencidas pelo descuido. Como quase sempre fazia calor, portas e janelas permaneciam boa parte do dia escancaradas, entao nao era difícil descobrir alguma coisa sobre quem morava ali. Aqui sao mais discretos, meio desconfiados, talvez porque estao perto demais uns dos outros. Quicá a cidade é grande demais e tem tanta gente que se sentem invadidos mesmo estando dentro das suas casas. Aqui nao tem plantacoes de milho ou soja no fim da rua. Tem mais prédios, mais avenidas, mais carros, construcoes que nascem intempestivamente e vao erguendo-se, insolentes, obstruindo a vista do céu e da cordilheira, ajudadas por esses dragoes barulhentos que esticam seus pescocos perigosamente por cima das suas cabecas... Sim, aqui o único que lhes resta sao as sacadas, mezquinhos retângulos de ar e espaco nos quais ainda podem brincar de ter um jardim para onde sair para fugir da opressao diária.