domingo, 24 de agosto de 2014

"Atravessar a máscara"

    Bom, o inverno voltou definitivamente após aquele veranico inesperado, entao também voltaram as botas, meias de la, agasalhos e blusas grossas...  Porém, a fria chuva dos últimos dois dias fez maravilhas pela qualidade do ar e pela paisagem: a cordilheira está simplesmente deslumbrante! Eu nao sabia que um dos morros mais baixos que rodéiam Santiago já estava tudinho verde, pois a poluicao nao me deixava vê-lo, mas hoje consegui enxergá-lo pela janela do corredor. Foi uma autêntica e agradável surpresa!... Tomara que chovesse mais um pouco, para termos a chance de respirar um pouco melhor por mais um tempinho. Esta cidade é maravilhosa, mas como toda grande metrópole tem uma péssima qualidade de ar. Eu já ando com uma tosse e o nariz meio entupido por causa disto, mas tenho certeza de que esta chuva abencoada vai dar uma melhorada na coisa. E depois, quando chega o verao a situacao fica um pouco melhor porque o calor faz com que a nuvem de poluicao suba um pouco e nos deixe um ar um pouco mais puro para respirar.
    E tomando um longo fôlego deste ar brilhante e transparente, aqui vai a desta semana:


    Derribar mitos nao é coisa fácil, definitivamente, sobretudo quando eles estao tao firmemente enraizados em nossa existência que já fazem parte dela. Quanto mais tempo levam exercendo seu poder, mais dificultoso se torna erradicá-los. Às vezes se tornam tao fortes que a gente acredita que sao realmente indestrutíveis e que estamos fadados a sufri-los até o nosso último día. Mas eu acho que esta sensacao se deve a que nós mesmos os alimentamos e justificamos pensando que estamos em débito com eles de alguma forma e que tirá-los da nossa vida nos acarretará algum mal e inclusive atrair uma punicao de Deus. Isto prova que somos capazes de criar e cultuar as nossas próprias supersticoes, vindas das nossas experiências ou da educacao que recebemos. Mas, será que precisamos mesmo delas para nos sentir seguros, protegidos, poderosos, controlados?...
    É verdade que tem alguns que até, em seu momento, podem ser positivos e dar-nos forca nos momentos difíceis ou nos  servir de inspiracao e nos dar coragem. No entanto, existem outros que, se nao freamos, sao capazes de nos destruír. E é difícil se enfrentar a eles, identificá-los como tais -pois  estamos acostumados à sua presenca- e aceitar que possuem uma influência totalmente negativa apesar da aparência "políticamente correta" que possam apresentar. Mas quando a sua proximidade nos faz mal física, psicológica e, às vezes, inclusive espiritualmente (e sem dúvida somos capazes de perceber isto, mesmo que  tentemos negar esta realidade) acho que nao se pode esperar mais para afastá-lo de nós. Se conseguirmos atravessar a máscara das suas intencoes e atitudes -que, inclusive, podem até ser inconscientes- e percebemos a verdade, entao será um pouco mais fácil derrubar este mito e afastar-nos dele. De uma certa forma, os mitos nos tornam adictos, dependentes, medrosos, sem identidade, sem coragem para sermos livres e viver os nossos próprios sonhos.
    Se diz que coisas, situacoes e pessoas permanecem no mundo e em nossas vidas enquanto sao necessárias, entao, acho que a coisa é aprender a perceber quando cada ciclo termina e chegou o momento de deixá-los ir embora porque já fizeram a sua parte, o que significa que estamos prontos para continuar e comecar a percorrer novos caminhos, nos quais precisaremos de outros apoios, outras pessoas, outras regras, outros comportamentos, outros mitos... Porque, ao que tudo indica, está provado que nao podemos parar de criá-los... Porém, devemos aprender a perceber em que momento eles se tornam daninhos. Entao, precisamos aprender a conviver com eles e nao permitir que nos dominem, deixando-os para atrás quando é necessário.

sábado, 16 de agosto de 2014

"Alguém se arrepende de uma boa acao?"

    Parece que o verao está com pressa este ano. No meio de agosto teremos 30 graus de temperatura amanha!... É claro, sao 30 graus de inverno, mas o povo já saiu para comprar camisetas regata, sandálias e shorts, as gelaterias estao lotadas e todos andam por aí de óculos escuros e bermuda. Mas estao esquecendo que isto é uma situacao passageira e que logo o inverno estará de volta com tudo, por mais um mes. Mas nao se pode negar que é muito gostoso deixar de lado as blusas de la, meias e agasalhos por alguns dias e se sentir mais leve e acariciada pelo sol (apesar da poluicao. Francamente, nao sei como é que os raios do sol conseguem atravessar esta camada cinza e parada sobre a cidade que todos nós, infelizmente, respiramos a cada dia)... Mas já falta pouco para a chegada da primavera, entao tem que ser paciente e tirar o melhor partido deste restinho de frío que ainda temos.
    E com todo este otimismo e com saudades de um sorvete (diet, é claro) aqui vai a da semana:


    O rapaz abre a porta para o homem carregado de caixas. A moca cede o banco no ônibus para a mulher com o bebê. O senhor ajuda à idosa cega a atravessar a rua. A senhora com o carrinho cheio deixa seu lugar na fila do mercado ao homem que comprou só um quilo de pao. O conserje sai da sua fortaleza para ajudar à moradora com os pacotes... Gestos breves, simples, espontáneos, mostras da bondade que temos no coracao. E nos sentimos tao bem cada vez que o fazemos!... É feito semear, iluminar, como contagiar, pois com certeza quem recebe nosso gesto de amabilidade se sentirá tentado a repeti-lo com outros que cruzem seu caminho. E deste jeito, feito um leque, a gentileza, a compaixao, a generosidade e o desprendimento podem ir tomando conta de cada espaco, demonstrando que somos intrínsecamente bons.
    Sei que tenho escrito muito sobre este tema, mas é que nao posso deixar de perceber que é uma atitude que realmente funciona e que pode mudar o mundo... Eu mesma, outro dia, me senti uma mistura de heroina, Papai Noel, discípulo, adolescente e profundamente feliz quando o rapaz exclamou, sorrindo:
    -Nossa, que bom poder comecar o dia assim!- só porque eu tinha deixado ele passar na minha frente na fila do mercado.
    Caramba!, como pode ser que algo tao simples, tao fácil e banal provoque na gente e no outro sensacoes tao boas, profundas e verdadeiras? E, realmente, nao custa nada!... Pratiquem-no e vao perceber que o que digo é a mais pura verdade: nós possuimos a faísca da bondade espontánea e desinteressada, do desejo de ver bem o outro, de ser caridosos e úteis, porém, grande parte das vezes nos negamos a acendê-la pelos motivos mais fúteis e porque parece ser mais fácil ignorar as necessidades dos demais. Mas, sinceramente, nao acredito que ninguém se sinta mal ou se arrependa de ter feito uma boa acao. Entao, se nos faz tao bem, por que somos tao mesquinhos para presenteá-la?... Pode ser que num comeco nos custe e que demoremos a perceber como e quando agir, mas quando isto se transforme num hábito, será deliciosamente compensador.
    Entao nós, que temos esta consciência, podemos comecar dando o exemplo. É bom demais como para ignorá-lo!

sábado, 9 de agosto de 2014

"Desistir, definitivamente, nao é uma opcao"

    Acho que esta semana vou sentar para escrever um conto. Estou rodeada de tantas e tao variadas histórias que é impossível fugir ao seu chamado. Precisam ser conhecidas, suas personagens têm de ser revelados, é preciso refletir sobre elas e usá-las como inspiracao, como lembrete, como uma amostra de pedacos da realidade na qual vivemos, mesmo que construindo uma fantasia em cima dela... Entao vou parar, vou olhar em minha volta, vou lembrar, e sei que meu coracao e a minha mente acordarao e encontrarao algum tesouro que eu deixei escapar na correria do dia-a-dia... Estes sao os momentos sagrados e impagáveis de um escritor, seu privilégio -às vezes doloroso e solitário, mas nunca silencioso- a sua missao, seu legado. E ele nao pode fazer outra coisa senao comparti-lo, esperando que os outros sintam e se inspirem como ele próprio a mudar, a agir, a sentir, a produzir. Pois é para isso que estamos aqui.
    Escrever é um dom? Uma maldicao? Uma missao? Um castigo?... Talvez um pouco de tudo isto, mas apesar do que custa, nao se pode deixar de fazer. Se nao se escreve se morre um pouco cada dia. Escrever é vida, é estar vivo. Pelo menos para mim, e vocês nao sabem como é reconfortante saber que tem tanta gente que se interessa pelo que escrevo. É isso que me impulsiona a continuar... Porém, tenho que confessar que, mesmo que ninguém lesse as minhas palavras, eu continuaria a escrever. Porque eu sou as palavras.


    Aqui tem um programa de televisao chamado "A juiza", no qual se mostram os mais variados casos legais que envolvem a famílias (pensoes, divórcios, herancas, etc) e que sao julgados e resolvidos pela condutora do programa, uma magistrada de verdade. Comecei a acompanhá-lo faz pouco tempo, meio que por acaso, numa tarde em que procurava algo para assistir na televisao naquela "hora-limbo" que sao as três da tarde, quando só passa programa repetido ou novela mexicana. E tenho que confessar que estou ficando viciada no tal programa. Por quê?... Bom nao é pelo teatral de alguns casos ou pela peculiaridade -por vezes cômica, por vezes trágica ou revoltante- de seus protagonistas, mas pelas histórias em si, pois ali nao se fala tao somente da parte legal, mas também das circunstâncias que levaram estas pessoas até o tribunal, do tipo de vida que levam, onde moram, o que fazem, como sao as as famílias, que outros problemas têm... E é aí que me dou conta de que existem homens e mulheres que vivem -o viveram- em condicoes que me fazem agradecer o fato de ter os pequenos problemas que tenho e que às vezes parecem esmagar-me. Escutando seus relatos me sinto francamente envergonhada - e aliviada, se se pode dizer- das minhas queixas, de me afogar num copo d'água, de desanimar e perder a paciência porque meus assuntos nao se resolvem logo e da forma que eu desejo. Na maioria dos casos, estas pessoas vivem amontoadas em casas diminutas e entuchadas, estao desempregadas, moram em bairros distantes e perigosos, têm que viver contanto as moedas para comprar qualquer coisa, até o mais essencial, nao têm planos de saúde nem uma educacao decente, completa, passam todo tipo de necessidade física e psicológica... E se viram. E saem adiante. E se sacrificam de formas que nao suspeitaríamos ou sequer consideraríamos possíveis. E nao desistem. E lutam dia após dia. E trabalham no que aparecer, nao importa se é longe ou se vao ganhar pouco... O importante é sobreviver, se manter com a cabeca fora d'água, guardar a dignidade e a esperanca... Sao feito aquelas outras pessoas com as quais cruzo quando vou correr pelas manhas. Lá estao, sou testemunha da sua luta diária, e me enchem de admiracao e coragem. É claro que eu nao estou na difícil situacao na qual eles se encontram -e espero nao estar nunca- e nao preciso fazer nada tao extremo para sobreviver e, por isso mesmo, seus depoimentos me botam na realidade do afortunada que sou e, ao mesmo tempo, me mostram que, quando as coisas ficam féias, nao se pode deixar de lutar nem de ter fé.
    Sobreviver em certas circunstâncias é realmente uma questao de garra e persistência e nós, os afortunados que o fazemos quase sem arranhoes, deveríamos prestar muita atencao nestes outros guerreiros que, com seu exemplo, nos ensinam -e os provam- que, desistir, definitivamente, nao é uma opcao.

sábado, 2 de agosto de 2014

"Histórias no chao"

    A dois dias de fazer aniversário, suponho que estou passando pelo meu pequeno "inferno astral" típico desta data, entao ando toda preocupada com esse negócio de envelhecer, da saúde, da dependência, de qualquer sintoma diferente (o que, é claro, só atrapalha e estraga meu dia, mas eu sou assim, apreensiva e ansiosa demais, o que vou fazer?) da comida que de repente me fez mal, etc, etc... Bom, gosto de imaginar que com a maioria das pessoas acontece a mesma coisa e que o segredo para levar adiante este processo inevitável (porque nao importa quantas cirurgias facamos nem quantas vitaminas tomemos, a coisa nao vai voltar atrás e muito menos parar) deve ser, acredito eu, fazê-lo com graca, com dignidade -dentro do possível- com bom humor e otimismo. Mas também, numa época como esta, ter 58, 60 e até 70 anos nao é uma coisa tao deprimente e isolante como era antigamente, entao tem que ficar numa boa e seguir em frente adaptando-se às mudancas e achaques, porém sem deixar de criar, de ser útil, alegre e positiva até o último instante. O que mais nos resta por fazer? Sentar e esperar a morte?... Jamais! Para que morrer entes do tempo?...
    Entao, depois desta declaracao contra os "infernos astrais" daqueles que fazemos mais anos dos que gostaríamos, aqui vai a crônica da semana:


    Aqui se reuniu um grupo de pessoas para conversar, beber um cafezinho, olhar a paisagem e o céu sem nuvens para fugir da rotina e a pressao do escritório: dúzias de bitucas espalhadas pela calcada...  Neste banco sentou alguém para fazer um lanche, e deve ter sobrepeso e ser sedentário, pois deixou tudo jogado no banco e em volta: lata de coca-cola vazia, embalagem de batatinha frita, de bolacha recheada, uma caixinha de plástico com restos de um sanduíche... Por aqui teve uma briga e alguém exagerou na reacao: uma garrafa quebrada na grama, umas gotas de sangue no canteiro... Vêm umas folhas de caderno rolando pelo chao, sujas e enrugadas, e se juntam a uma régua verde em pedacos: um aluno rebelde, impaciente, que nao atura mais as exigências dos professores e o tempo que desperdica na sala de aula quando poderia estar fazendo algo muito mais legal num outro lugar. O futuro? Quem se importa? Esse tema está supervalorizado, o que interessa é o presente e o que se pode curtir nele... Ali, uma mancha de sangue na calcada, uma blusa de la suja e rasgada embolada junto de um poste, feito um cachorro envergonhado sob a sua sombra: os rapazes que se acham vigilantes, fogo purificador de uma raca inventada por eles mesmos e a sua moral preconceituosa, que saem à noite para atacar os mendigos e os bêbados que dormem nas pracas. Nem os cachorros escapam da sua fúria e descaramento... A caixa de remédio vazía, o ninho espatifado na grama, a luva ou o sapato abandonado no meio fio, a moedinha de cinquenta centavos, o peinte, uns restos de bexigas coloridas... Sim, definitivamente se podem descobrir histórias no chao.
    Sempre digo que tem que erguer a vista para encontrar e conhecer as pessoas e seus cenários, para saber o que está acontecendo e ter a chance de participar, no entanto, tenho que admitir que também encontramos e conhecemos capítulos de suas vidas quando abaixamos os olhos.

sábado, 26 de julho de 2014

"Pequenos atos, grandes resultados"

    Ontem se comemorou o dia do escritor, esse louco que sonha e cria outros mundos para os demais, esse herói que luta contra a falta de cultura, a preguica e os aplicativos da internet, esse soldado que se aventura pelos nossos segredos pra expô-los e exorcizá-los, para torná-los menos pesados, esse mágico que nos une e nos encanta através dos tempos contando as nossas histórias, nossas lendas, costumes, tragédias e alegrías, as nossas descobertas, nossos fracassos, nossos encontros e despedidas. E o faz como se tudo tivesse vivenciado em carne própria, por isso nos comove, nos toca lá no fundo, nos faz querer mais. Quem é ele? O que deseja? onde quer chegar? Onde quer nos levar com as suas palavras? Ao seu coracao, seu mundo, seus sonhos? Ou aos nossos?... Para descobrir, tem que ler.


    Às vezes acho que, ao invés de pedir o dízimo em dinheiro, as igrejas e organizacoes de ajuda deveriam pedi-lo aos seus paroquianos e integrantes em tempo. Deveriam cobrar deles acao e nao cheques, porque acredito que está fazendo mais falta gente agindo do que grana no banco, mesmo se ela também é necessária. Mas nao se trata de carteiras, e sim de coracoes que precisam se abrir, olhar em volta, se sensibilizar... E nao falo somente de se envolver em algum tipo de trabalho voluntário, mas do que cada um leva na consciência, no coracao, na criacao, do que pode ser feito ao longo da nossa jornada diária. Seria um dízimo que poderíamos entregar cada dia com pequenas acoes e iniciativas e que ajudariam efetiva e imediatamente aos que estao precisando. Assinar um cheque ou jogar algumas moedas na cestinha da igreja tem pouco ou quase nada de verdadeiro comprometimento, de verdadeira consciência e compaixao. É mais um ato automático, sem emocao, um alívio para a nossa consciência. Nao existe nenhum envolvimento, nenhuma proximidade com aquele que vai receber a nossa doacao. E para mim, este é o ponto: porque nao é somente o mendigo da esquina quem precisa da nossa ajuda, mas também qualquer pessoa com a qual cruzemos e que esteja passando por uma situacao difícil, nao importa quao banal possa parecer. Porque as pequenas coisas também sao importantes. Nao esquecamos que o deserto do Sahara é feito de minúsculos graos de areia...
    Agindo desta forma poderemos ser úteis a todos, em todo momento, nos manteremos num permanente estado de atencao, de empatia e servico. E com certeza, aquele que recebeu o nosso "dízimo" desinteressado, se sentirá impulsionado a repetir esta atitude (isto está comprovado) criando assim uma corrente de boas acoes que pode dar frutos surpreendentes e atingir níveis que nem a melhor campanha publicitário ou o cheque mais exorbitante conseguiría.
    Definitivamente, só as nossas boas acoes -grandes ou pequenas- podem mudar o mundo.

domingo, 20 de julho de 2014

"Meu Deus, como o tempo voa!"

    Bom, parece que, definitivamente o nosso veranico acabou. Depois de uma semana de sol esplendoroso e temperaturas primaveris, hoje amanheceu frio e com uma névoa espessa que nao sei de onde veio, porque ontem estava um céu de brigadeiro. Nao para ver nem o morro do Sao Cristóvao aqui perto e mal dá para enxergar os prédios da calcada em frente!... Só espero que mais tarde isto se disipe, porque senao é capaz de eu me perder quando sair para passear com as cadelinhas... É muito esquisito olhar pela janela e nao ver nada além de uma cortina branca. Parece que a gente está sonhando. É a mesma sensacao que eu tinha quando era garota e ia no colégio num dia assim. Para chegar lá precisava cruzar uma enorme data vazia rodeada por esta névoa, e sempre era tomada por aquela sensacao de que nao iria conseguir, de que seria engolida por aquela nuvem espessa... Ainda bem que, efetivamente, estava acordada e, pouco tempo depois, com passos meio hesitante, devo confessar, eu já podia enxergar os prédios e as grades do colégio... Mas o susto e a sensacao desagradável ficavam ainda por um tempo.
    E como hoje já nao preciso ir ao colégio -até porque é domingo- posso sentar aqui tranquilamente para postar a minha crônica da semana sem me preocupar em ser devorada por esta neblina londrina que toma conta da cidade.


    Realmente, me sinto fascinada por esta questao do tempo, de viver o presente, de ser feito os cachorros, que curtem o aqui e o agora sem nenhum problema. Porque, se paramos para pensar, isso é tudo que temos. Nem sequer podemos antever o seguinte minuto da nossa vida, a nao ser que tenhamos algum dom sobrenatural. Toda ela consta de um constante presente y mais nada. Entao, se supoe que esta consciência deveria preservar-nos de toda ansiedade e temor, mas infelizmente  nao é  bem assim. Nao sei se é devido a que estamos sempre tracando planos e preparando nosso futuro -e às vezes o dos outros- e a expectativa de que os nossos projetos tenham sucesso nos impede perceber que a única realidade é a que acontece neste momento, entao nos afligimos por acontecimentos que nao existem e vivemos com a cabeca no amanha, deixando passar o presente como se nao tivesse nenhum valor.
    Eu sei que  a gente precisa ter objetivos e planejar estratégias e caminhos para atingi-los, porém, às vezes este trabalho nos consome de tal forma que nao nos damos conta de que nao estamos vivendo o presente, que é a verdadeira realidade. Acho que dalí vem a surpresa que toma conta de nós quando um dia nos olhamos no espelho e exclamamos, assustados: "Meu Deus, como o tempo voa!", e nos sentimos injusticados  pela sua pressa e falta de consideracao... No entanto, se tivéssemos vivido nosso presente ao mesmo tempo em que planejávamos o futuro, talvez nao levaríamos uma surpresa tao desagradável.
    Mas, será que esta combinacao é possível? Será que poderíamos conseguir o equilíbrio entre estes dois estados de consciência?... Acredita-se que viver somente o hoje pode ser uma atitude irresponsável. Mas viver focalizado somente no futuro também é. Entao, o que fazer?... Talvez planejar o amanha e construi-lo dia após dia, sem se adiantar, fazendo que nosso presente bem vivido seja feito um grao de areia -colocado um de cada vez- na construcao do prédio da nossa existência.
    Será que consigo viver deste jeito?...

sábado, 12 de julho de 2014

"A lista"

    É bom, quando a gente fica nostálgica demais do passado, sentar e trazê-lo para a realidade, porque sempre se tem o costume de idealizar, enfeitar e até mudar um pouco aquilo do qual temos saudades, o que só nos provoca dor e frustracao... Eu fiz este exercício outro dia e, ao analisar e botar tudo na perspectiva da realidade, acontece que, mais uma vez, percebi que aquilo tudo pertencia ao passado, que tinha me ensinado muito, mas que era impossível revivê-lo ou retomá-lo. Tudo tinha mudado e também tinha a sua parte bastante negativa... Mas é que quando a gente está meio perdida ou frustrada no presente, tem a tendência de procurar consolo em épocas que -aparentemente- foram melhores, sem perceber que todas elas têm seu lado positivo e negativo, inclusive a presente que, daqui a algum tempo, virará esse passado no qual procuramos saídas... Porém, o passado está fechado, os ciclos se completaram (por isso sao passado) as pessoas e as situacoes mudaram... Entao, sob essa perspectiva, é melhor lembrar numa boa ao invés de sofrer por nao poder voltar atrás. É melhor trazer as licoes para este presente e usá-las para transformá-lo em algo que nos realize e nos deixe felizes e em paz.
    Licao aprendida (mas nao prometo que nao voltarei a sentir saudades, mas agora saberei como lidar com isso) vamos ao que interessa: a crônica da semana. Aqui vai:


    Dizia a psicóloga para a mulher que sofria de depressao, num programa de televisao: "Toda vez que você comecar a ter pensamentos negativos ou se sentir angustiada pelos problemas, faca uma lista deles numa folha de papel e, na frente, escreva um pensamento positivo que o neutralize ou, entao, uma acao que solucione esse problema que aflige você."...
    Eu estava esparramada no sofá, passando distraidamente de um canal para outro, pleno sábado à tarde, quando passam juntos todos o programas e filmes que você já assistiu durante a semana, e de repente esbarrei com este programa, do tipo auto-ajuda. Em geral, nao dou muita bola para este tipo de coisa (depois das quais a gente se pergunta: "Como foi que eu nao pensei nisso aí antes?")  mas desta vez tirei o dedo do controle remoto e fiquei assistindo um pouco e refletindo... E no fim das contas, aquilo me pareceu uma ótima estratégia para combater nao só a depressao, mas também aqueles dias em que a gente acorda atravessada e enxerga tudo preto... A coisa, pensei, é botar para fora tudo que nos atormenta, enfrentá-lo cara a cara -nao importa quao medonho seja- e tentar encontrar uma saída, uma solucao ou, pelo menos, um jeito de lidar com isso de forma que nao nos paralise. Já sabemos que nada se consigue com lamentacoes -pode fazer no primeiro momento, mas a gente nao pode ficar nessa- culpando o mundo, se deprimindo ou entrando em pânico. Tampouco vale abaixar a cabeca e se conformar e dar uma de vítima. Tudo isto só nos afunda, fecha as portas, nos afasta de quem pode nos ajudar, impede que percebamos o que está acontecendo conosco e que reajamos a isto.
    Por exemplo, falando de mim mesma: Tenho medo das hipoglicemias? Pois ando com um saquinho de balas bem doces na bolsa. Nao quero mais ter problemas estomacais? Faco uma dieta saudável, sem escapadinhas. Receio me perder na rua? (sou terrívelmente despistada) Bom, esta cidade está cheia de gente a quem perguntar e de táxis que posso pegar e que me levarao sem problemas ao meu destino. Ainda nao tenho contatos para conseguir um espaco como cronista? Pois tenho meus blogs e a oportunidade de publicar as minhas crônicas na Folha de Londrina e deste jeito consigo que muita gente as leia... E assim por diante. Para cada coisa negativa tem que fazer o esforco de encontrar a contrapartida positiva. É como aquele jogo de Pollyanna e, por mais ingênuo que pareca, posso afirmar que sim funciona e que pode chegar a se transformar num estilo de vida que nos levará a descobrir que existe nem que seja uma gota de felicidade em tudo que nos acontece. Nos obriga a manter a mente aberta e disposta para uma dinâmica que pode tirar proveito de todas as situacoes. Pode ser que no comeco nos custe um pouco e que a gente se sinta meio boba, travada, sem criatividade, mas com o tempo e a prática acabará resultando-nos a coisa mais natural do mundo e veremos que todo o esforco e a perseveranca valeram a pena. Nao é que nunca mais vamos nos sentir infelizes ou frustrados, porém, pelo menos seremos capazes de encontrar uma faísca de alegria mesmo no meio das mais escuras trevas. E isso é algo que nao tem preco.