domingo, 23 de novembro de 2014

"Filhos"

    A primavera é feito uma noiva caprichosa: um dia sai o sol e botamos camiseta e sandálias, com a ilusao de que o verao já chegou. No outro esfria e novamente temos de calcar meias e vestir blusa de la, beber um chazinho quente e botar de volta o cobertor na cama... A primavera nos tenta, nos ilude, nos da esperanca, nos mostra o sol que virá, as férias e as manhas frescas que curtiremos, o som do mar, seu azul sempre em movimento, as brincadeiras, o delicioso ócio e os pequenos e grandes prazeres que nsao tao difíceis de desfrutar no resto do ano... Definitivamente, a primavera é feito uma noiva: promete tudo, se mostra aos poucos, nos seduz e nos enche de esperanca.
    E aproveitando o friozinho de hoje, com a minha xícara de chá de hortela quentinha aqui do lado, aqui vai a da semana:


    De repente, a gente pára e olha para os filhos, essas pessoas altas e auto suficientes, de fala clara e gestos definidos, e os vê saindo e entrando, tomando decisoes, enfrentando o mundo e seus mil armadilhas, batalhas, tentacoes e opcoes sem perguntar nada para a gente. Observamos seus corpos desenvolvidos e independentes e levamos um tremendo de um susto... Porque, onde foram parar as nossas criancinhas? Quando foi que cresceram tanto assim? Como é possível que virassem estes adultos que planejam ir embora de casa para formar a sua própria família? Em que momento aprenderam a se virar tao bem sem a nossa ajuda?.. É claro que nós os educamos para que assim fosse e nos sentimos orgulhosos de tê-lo conseguido, porém, agora que é uma realidade, de repente nos parecem até uns estranhos, porque nós temos uma visao deles e eles têm uma outra completamente diferente de si mesmos e às vezes  até de nós. O conceito "filho" que os pais temos será sempre o da crianca à qual tem de se acompanhar, consolar, proteger, dirigir e cuidar o tempo todo. É algo quase impossível de arrancar da nossa mente , do nosso coracao, do nosso instinto. Funciona durante algum tempo, porém, infalívelmente, chegará o momento em que a visao dos filhos comecará a mudar e cortarao o cordao umbilical para se lancar no mundo -como é seu destino- e sair da barra da nossa saia... A gente sabe que isto acontecerá, que é natural e inevitável, mas quando comeca a perceber os sintomas, nao pode evitar perguntar a si mesmo: "Por que tao cedo?" E em seguida: "O que vou fazer agora?"... E é por isso que nós também precisamos nos preparar -ao mesmo tempo em que preparamos nossos filhos- para esta partida, para esta "solidao", pois nao somente os filhos se tornam independentes ao irem embora de casa e assumir as rédeas das suas vidas, mas também o fazem os pais, já que, apesar de que o amor nao diminui, termina a responsabilidade, a dependência, a guia, a vigilância. Voltam a ser como se nao tivessem filhos, pois a vida deles nao está mais em suas maos.
    Ver o filho feito um adulto traz uma mistura de sensacoes encontradas: orgulho, medo, alívio, desconcerto, plenitude, felicidade, saudade, consciência da velhice... No entanto, e apesar de tudo isto acredito que, na maioria dos casos, o sentimento que deve prevalecer é o consolo, pois eles estao ali, adultos e responsáveis, para cuidar de nós agora. Saber que podemos contar com nossos filhos ao longo da nossa última etapa assim como eles puderam contar com a gente em seus primeiros anos, dá uma sensacao de gratidao, de realizacao e seguranca que nada paga.
    

sábado, 15 de novembro de 2014

"A bexiga e o saco plástico"

     Às vezes me espanta a facilidade que temos para sermos ingratos e sofrer de uma auto compaixao sem medida, que nos impede ver as coisas boas que temos. Tem tanta gente que nao pode ir ao médico, nao tem como comprar remédios, fazer exames, pagar o aluguel! Gente que, doente, cheia de dores, deprimida ou assustada sai todo dia da cama e encara o mundo porque, simplesmente, nao tem outro jeito. Gente que vive amontoada, em barracos de tábuas e papelao, que nao faz ideia o que vai comer naquele dia, que nao tem água nem luz, que cozinha o que encontra sobre quatro tijolos. Gente que dorme nas ruas, nos bancos das pracas, em containers de lixo, que remexe nas lixeiras e devora o que os outros jogam fora, que anda descalco e com a roupa suja, rasgada, fedida... E nós, que nem conseguimos imaginar como seria viver assim, temos a coragem de reclamar, de nos sentir injusticados, esquecidos por Deus. Nós, que temos água quente e a despensa bem munida, roupa no armário e computador, televisao HD, uma cama, um aquecedor... Nós, que sempre queremos mais e deixamos passar tantos milagres, que nao damos valor ao que temos, ao que recebemos, que nao aprendemos nem compartilhamos... Realmente, a raca humana tem umas coisas maravilhosas, mas quando se trata de seu lado escuro, poucos ganham dela em negridao e inconsciência.
    E aproveitando este puxao de orelhas, que comeca por mim mesma, aqui  vai a crônica da semana.


    "A bexiga e o saco plástico"... Parece o título de um conto infantil, uma fábula, ou de um filme da Disney. Porém, na verdade foi uma cena com a qual me deparei outro dia, quando ia para o mercado... Domingo ensolarado e fresco, rajadas de vento perfumado varriam a rua quase vazia e eu ia passeando, cantarolando alguma coisa enquanto me deliciava por antecipado com o frango assado que iria comprar no mercado, cheiroso, crocante, dourado e bem temperado com orégano... De pronto, surgindo nao sei de onde, vejo uma bexiga vermelha que se aproxima dancando graciosamente entre a rua e a calcada. Brilhava e girava, lancando destelhos, leve e graciosa. Parei um momento para observá-la, perguntando-me de onde viria. De uma festa? Um parque? Uma loja? Com certeza devia ter algum moleque desconsolado por aí... Pensei apanhá-la e ver se o dono estava por perto, mas o vento estava caprichoso demais e eu teria de fazer umas quantas piruetas ridículas para poder pegá-la. Tinha pouca gente na rua, era verdade, mas meu senso de dignidade e sobrevivência falaram mais alto, entao decidi deixar para lá. Com certeza, a mae compraria uma outra bexiga para a crianca e eu nao queria ficar sem meu almoco. Assim, sorri para a bexiga e continuei a caminhar... E foi entao que ele apareceu. Tampouco sei de onde, mas de repente se elevou no ar este saco plástico preto, do tipo mais vulgar, daqueles que nem sequer tem brilho, e inflado pelo vento, comecou uma danca cheia de subidas e descidas, enchendo-se, contorcendo-se, enrugando-se e, aos poucos, foi se aproximando da bexiga vermelha que, por sua vez, continuava a flutuar graciosamente... Eu fiquei imóvel, absolutamente fascinada pelo espetáculo com que estava sendo agraciada... Era um duelo? Uma casualidade? Talvez uma licao? Era o vento quem comandava as coreografías, ou a bexiga e o saco aproveitavam a sua passagem para se exibir diante dos transeúntes? Eu era a única que estava testemunhando aquilo?...
    O show durou uns dez minutos, sem que a forca do vento, curiosamente, arrastasse os dancarinos para um outro lugar, nem eles se enroscassem em algúm objeto, num quiosque ou nos andaimes da construcao ali perto. Eu me sentia totalmente hipnotizada e, aos poucos, tomada por uma grande emocao. A bexiga, linda e graciosa, o saco, féio e vulgar, ambos aproveitando o mesmo vento -que era para todos, incluindo a mim mesma- para fazer algo igualmente belo... Pensei entao: "Todos podemos. Todos temos a chance, só tem que percebê-la e aproveitá-la". A bexiga, com a sua forma perfeita, e o saco plástico, desengoncado e banal, dancaram com idêntica perfeicao, cada qual aproveitando as suas qualidades, suas possibilidades, a sua individualidade. A diferenca entre ambos nao foi um empecilho, mas uma oportunidade de mostrar coragem e criatividade, uma diversidade bem aproveitada.
    Será que nós podemos fazer o mesmo?

sábado, 8 de novembro de 2014

"Aparências que enganam"

    E este mes vai embora e já chega dezembro, o natal, o ano novo, as visitas tao longamente aguardadas. É hora de terminar projetos e comecar outros, sempre com a esperanca de que poderemos realizá-los. Também chega o sol, o vento perfumado, a sombra acolhedora, os entardeceres dourados refletidos nas janelas dos prédios. Se respira o descanso antecipado, a alegria da festa, dos presentes, das promessas, da renovacao... E o que se faz da vida? Pois se vive, sem importar onde estejamos, nem o que facamos, quantos anos temos, de que raca somos, qual credo temos, qual opcao sexual ou condicao econômica, se estamos sozinhos ou acompanhados. O que importa é viver, nao deixar nenhum dia passar em branco, nao desprezar as oportunidades, acreditar nelas, acreditar no futuro que nos aguarda na volta da esquina, cheio de surpresas e descobertas, das licoes que tando precisamos para crescer e chegar no fim livres, realizados, felizes, serenos... O que mais se pode desejar para comemorar o fim do ano?...


    Estava lembrando daquele rapaz cheio de piercings, tatuagens, olhos com delineador e cabelo com corte mohicano que conheci no parque e que recolhe cachorros abandonados e encontra novos lares para eles, e da surpresa que levei ao saber da sua dedicacao para com estes animais, o que me fez refletir sobre como as aparências podem nos enganar às vezes... Porém, falo aqui daquela parte estética, nao da primeira impressao "psicológica" que às vezes temos ao conhecermos alguém. Porque pode ser uma pessoa bonita e bem vestida, de fala educada e modos refinados, mas que nos provoca calafríos... Nao, isto tem a ver com a pura aparência, que por vezes nos passa uma rasteira, nos poe à prova e nos faz pisar na jaca bonitinho... A mesma coisa me aconteceu com aquele mendigo fedido e sujo, com crostas de sujeira nos pés e as calcas endurecidas de orina, que revira as lixeiras do passeio para comer o que os outros jogam fora. Mas que compartilha o que encontra com os pássaros e os cachorros, mantém longas e profundas conversas com homens e mulheres de classe média, é compassivo com os outros mendigos menos afortunados e lê atentamente o jornal sentado em seu banco -tao engordurado e fedido quanto ele próprio- ajuda os transeuntes com informacoes e tem um lindo sorriso e um polido "bom dia" e "agradecido" para quem o cumprimente ou lhe dê alguma coisa... E também levei uma enorme surpresa com o vendedor de fruta que tem o rosto cheio de  horríveis cicatrizes -o que lhe da um aspecto medonho, quase monstruoso- e um corte mohicano ouricado e sujo, roupas de couro preto, correntes, pulseiras e anéis de metal com pontas, botas de plataforma e unhas compridas e sujas, mas que atende seus clientes com uma gentileza inesperada e trabalha duro cada dia empurrando seu enorme carro cheio de frutas frescas.
    E assim somam e seguem estes personagens feios, sujos, mal vestidos, por vezes fedidos, de voz roufenha e feicoes endurecidas pela luta do dia-a-dia. Estas pessoas estranhas, quase bizarras, das quais temos tanto medo, de todas as idades, sexos e classes sociais, que sao capazes de nos enganar com uma aparência nada convidativa, mas que se revelam, se ficamos o suficiente como para desmascará-las, vencendo nosso instintivo receio, seres humanos sensíveis, decentes, trabalhadores, honestos, sábios, com histórias comoventes das quais podemos aprender muito.
    Por isso, tentemos dar sempre uma segunda chance às pessoas, mesmo que demoremos para criar a coragem, porque no fim, pode valer a pena.

sábado, 1 de novembro de 2014

"O bem que gostaríamos de entregar"

    O ano já termina e passaremos um outro natal -o nosso segundo aqui- em companhia do meu filho e a sua namorada, o que será o melhor presente que poderia ganhar. Na minha idade já nao me interessam muito as coisas materiais. O que me faz realmente feliz é a companhia, a música, os passeios, partilhar experiências, cuidar da saúde, bater papo, escrever... Sao os momentos e as pessoas, as acoes, as licoes, as sensacoes. Isto é que virou um presente para mim agora que voltei. Nao é que nao curta um vestido bonito ou um restaurante de qualidade, um novo par de sapatos ou umas férias num bom hotel, porém, se nao tivesse tudo isso nao sentiria falta. Agora, se nao tivesse esperanca, otimismo, criatividade, boa companhia carinho, respeito, inspiracao, saúde, aí sim me sentiria muito infeliz e deprimida... Sento aqui e contemplo a paisagem deslumbrante da cidade e a cordilheira pela janela e digo para mim mesma, admirada e sorridente: Como mudam as coisas com o passar do tempo! Como nós mudamos, e para melhor!...


    Que custa sorrir?... É incrível como as pessoas respondem positivamente  a um sorriso, a um gesto amável, a um elogio sincero. Parece que têm fome de gentileza, de elogio -por mais simples que seja- de reconhecimento. E por que somos tao arredios para fazer tudo isto, se parece tao fácil? Será porque sempre esperamos que os outros facam primeiro? Mas nao percebemos que se nós tomamos a iniciativa teremos de volta imediatamente aquilo que esperamos?... As pessoas almejam nosso sorriso, nosso apóio, nosso consolo e consideracao, nossa boa vontade e amabilidade, nossa compreensao e compaixao alí mesmo, na fila do banco, no metrô, no consultório, na loja, o mercado, a calcada. Nao tem um lugar nem um momento específicos para sorrir ou ter um gesto desinteressado, isto precisa acontecer sempre, pois esta é a forma correcta de viver. Tenho assistido alguns videos nos quais um primeiro gesto de consideracao cria uma verdadeira corrente de boas acoes, todas simples porém necessárias e eficientes no momento em que sao realizadas, e sempre acabo com os olhos cheios de lágrimas, pois percebo do que somos capazes se nos esforcamos, se saimos da nossa bolha de desconfianca e preguica, se prestamos atencao no que acontece conosco, naqueles a quem encontramos, no que vemos e sentimos. Sim, porque todos temos dentro de nós essa vontade, esse bem que gostariamos de entregar, essa vocacao para ajudar de qualquer forma. Todos queremos ver os outros felizes, prósperos, tranquilos. Esse sorriso está sempre em nossos lábios, pronto para florescer, porém, boa parte das vezes em que poderia fazê-lo, nós apertamos a boca e dizemos para nós mesmos que nao temos tempo, que nao vale a pena, que um outro o fará, que é ingênuo e inútil, que nao vai fazer diferenca nenhuma para o outro... E no fundo, percebemos que isto é uma grande mentira, porque sabemos perfeitamente o que acontece quando a gente sorri.

sábado, 25 de outubro de 2014

"Nada fora do comum"

    Dias de sol, de calor, de esperanca e suspense com a saúde da minha filha... Mas eu sei que tudo tem solucao, a coisa é nao desistir. Os milagres acontecem justamente quando parece que tudo está perdido, quando estamos na beira do precipício, quando achamos que todas as pontes queimaram e nao temos como continuar. Este é o momento, a prova final de fé... Porque os milagres acontecem, sim, mas nem sempre como esperamos, entao precisamos manter o olhar atento para nao perdê-los e agradecer cada vez que um aparece. O milagre maior é a própria vida e tudo que nela acontece. Vamos vivi-la, pois, cada dia, cada hora, cada instante porque dentro deste milagre maior há infinitos outros, grandes, pequenos, banais, preciosos, licoes que precisamos aprender e vivenciar para crescermos e sermos melhores.
    E fugindo do calor neste cantinho de apartamento onde se forma uma agradável corrente de ar de todas as janelas abertas, aqui vai a crônica da semana.



    Estou quase convencida de que os pequenos sucessos sao mais valiosos, nos ensinam mais e sao muito mais fáceis de administrar e desfrutar do que os grandes. Quantas pessoas nao vemos por aí, arruinadas por um sucesso com o qual nao conseguem lidar, devoradas, desestruturadas por ele. Eu sempre achei que desejava um grande sucesso, com a fama, o dinheiro, a influência, o prestígio e todas as vantagens que aparentemente traz, mas com o passar do tempo acabei percebendo que no teria tido o equilíbrio, a maturidade nem o fôlego para lidar com algo assim. Nao digo que nao seja tentador e que nao pareca sumamente agradável, mas também tenho que admitir que traz consequências e responsabilidades que poucos têm a estrutura física, emocional e espiritual para administrar.
    Por isso outro dia, quando estava assistindo na televisao as histórias comoventes e quase heróicas de algumas pessoas e seus modestos porém valiosos sucessos, fiquei analisando os meus e, apesar de que num primeiro momento me senti um pouco triste e meio frustrada por nao ter ido mais longe, por ter tido sempre logros breves e modestos, no fim das contas cheguei à conclusao de que, em primeiro lugar, me dei bem em tudo que empreendi, em segundo lugar, sentei algum precedente, deixei uma marca, influenciei pessoas, mudei-as para mehor- nem que fosse um pouquinho- todos os projetos que comecei, terminei. E em terceiro lugar, como já disse, acho que se tivesse virado excessivamente famosa ou influente por causa deste sucesso, nao teria aguentado. Talvez esta fama teria puxado o pior de mim, talvez teria me desequilibrado e teria perdido de vista a pureza e o desinteresse dos objetivos. Quem sabe tivesse sacrificado o que era mesmo importante pelas aparências, os favores, as exigências, os compromissos... Nao acredito que eu -sendo tao arrogante e vaidosa como sou- esteja feita para este tipo de sucesso, mas para aquele mais modesto, mais escondido, mais próximo. Mas igualmente efetivo, porque é mais "limpo", mais sincero. Estou contente com meus blogs, com as minhas crônicas, com as pecas que escrevi e dirigi, com as aulas que ministrei, com este pseudo-anonimato, pois gracas a ele sou capaz de manter um olhar atento, claro e maravilhado sobre o mundo, seus personagens e acontecimentos. Nao sou nada fora do comum, nao olho ninguém desde outro planeta. Meu anonimato me torna capaz de colocar-me no lugar dos outros, me permite misturar-me, conhecer e descobrir a riqueza e diversidade fantásticas que existem no mundo e poder aproveitá-las e mostrá-las aos outros.
    Estou convencida de que estou deixando uma marca, que estou transformando vidas (nada dramático, só o suficiente) despertando coracoes, abrindo olhos... E agora sei que para conseguir isto basta sorrir, ajudar nas coisas simples, escutar, ter compaixao, propagar o bem nos acontecimentos de cada dia, nao ser preguicosa nem deixar passar as oportunidades de agir corretamente, partilhar os pequenos e valiosos milagres e licoes que recebemos. E para fazer tudo isto nao precisamos ser famosos, ricos ou influentes. O herói anônimo faz a sua parte no momento presente e continua seu caminho atento à próxima oportunidade, pois sabe que elas nao devem ser desperdicadas ou ignoradas. Está ciente de que o sucesso da sua empreitada será bom nao só para ele próprio, mas para todos.

sábado, 18 de outubro de 2014

"Bonecos de cera"

    Tudo pode ser mudado, pode parar, ser desviado, ser controlado, menos o tempo. Uma avalanche pára, o fogo se extingue, a dor passa, a ferida cicatriza a enchente seca, mas nada detém o avanco do tempo. É inflexível, indiferente, ingovernável. Acredito que é a única coisa que o ser humano jamais conseguirá dominar e manipular como bem entender, pois ele vem e vai embora, tem as suas próprias regras e somos nós quem precisamos nos adaptar a elas, porque é feito um rio; nós estamos em suas águas e nao podemos escapar à sua acao... Por isso, há que viver, nao perder o sono, a criatividade, a coragem ou a alegria por coisas que nao sao realmente importantes... Devemos aproveitar cada segundo, cada chance, precisamos lutar as nossas batalhas e comemorar todas as nossas vitórias, nao importa se sao pequenas. Todas sao importantes e nos tornam mais fortes e melhores. Precisamos dar e receber, amar e sermos amados, consolar e sermos consolados, porque a moeda sempre tem duas faces. Tempo é ouro, é um presente que recebemos somente uma vez, por isso devemos valorizá-lo e usá-lo da melhor forma possível... No fim, todos iremos cair no mar, porém,  o nosso percorrido pelo río do tempo  é que fará a diferenca e dirá se a nossa existência valeu a pena e deixou a sua marca.
Entao, aproveitando cada minuto, aquí vai a crônica da semana.



    Sinceramente, nao posso deixar de me espantar ao ver esta luta insana na qual algumas pessoas têm se enfronhado contra algo que nao podem evitar: a velhice. Podem fazer um milhao de cirurgias e implantes, se esticar e botar fios de ouro e titânio até parecerem verdadeiros monstros, que o tempo nao vai parar por isso e muito menos voltar atrás. O corpo e as suas funcoes continuarao a se deteriorar independentemente de quao esticada tenhamos a pele. Nao se pode operar ne anular o processo biológico natural da nossa existência. Ficaremos velhos e morreremos, nao adianta nos rebelar nem tentar enganar a nós mesmos entrando e saindo de salas de cirurgía... Quantos quase monstros andam por aí para provar-nos as aberracoes que podem resultar da nossa teimosía e obsessao! Rostos desfigurados, feicoes irreconhecíveis, exageros patéticos para tentar manter uma falsa juventude e vico. Parceiros mais novos, roupas apertadas, decotadas, festas e excessos para demonstrar que a cirurgía que esticou o rosto fez o "milagre" de rejuvenescer todo o resto. Porém, quando chegarem aos oitenta -se é que o fazem após tantos despropósitos- mesmo que parecam ter vinte ou trinta anos à custa de cirurgías, terao o organismo cansado, desgastado, as forcas diminuídas e todos os achaques correspondentes à idade que realmente têm. E vao morrer do mesmo jeito, pois nem o melhor médico fará com que fujam desse fato.
    E o pior é que terao sacrificado toda a dignidade e a serenidade só para parecerem bonecos de cera num caixao.


    

sábado, 11 de outubro de 2014

"Construindo santuários"

    Parece que eu nunca acabo de arrumar, de mudar, de pôr ou tirar, de reeditar e avaliar a disposicao e importância das coisas para conseguir que o ambiente no qual vivo ou trabalho me acolha e eu me sinta em equilíbrio e identificada com ele... Mas nao é que eu seja uma inconformista ou uma daquelas eternas insatisfeitas, senao que percebo, à medida que o tempo passa, que eu vou mudando, entao o cenário onde me mexo também precisa mudar. Tudo tem de acompanhar nosso movimento exterior e interior, casos contrário entramos numa espécie de luta na qual nos sentimos deslocados, estranhos, sem identidade, sem um lugar ao qual chamar de "nosso", que tenha a nossa cara, as nossas cores, formas e sons, nossa luz e nossas sombras, que respeite e acolha as nossas emocoes, sonhos e segredos. Todos deveríamos ter algum lugar, no trabalho ou em casa, ao qual pudéssemos chamar de "santuário", já que é imprescindível que possamos nos renovar, nos reinventar, nos reciclar, nos encontrar  e nos analisar a cada certo tempo e este é o único lugar onde podemos fazê-lo com calma e clareza... Pode ser sob uma árvore, num canto do quarto, numa igreja, embaixo do chuveiro, num cantinho especial na lanchonette... Qualquer lugar onde nos sintamos nós mesmos serve. O importante é que o tenhamos e que contenha a nossa escência. Ali, Deus e os anjos estarao aguardando por nós.



    É incrível como as pessoas -comecando por mim mesma- costumam repetir ou reproduzir padroes de comportamento, rotinas e cenários ao longo de suas vidas para se sentirem seguras e tranquilas, "em casa". O assunto do comportamento e as rotinas é até compreensível, pois também se trata de uma questao de sobrevivência, algo quase que instintivo, porém, o fato de também reproduzirem  cenários me parece realmente notável e muito revelador.
    Eu percebi isto por mim mesma, ao longo de todas as mudancas pelas quais tenho passado, sobretudo neste último tempo... Lembro que, antes mesmo de nos mudar, eu já estava pensando repetir ambientes no novo apartamento!... E um dos que mais tenho reproduzido em minha vida, partindo com o primeiro quarto que tive sozinha em minha casa em Santa Júlia, tem sido o da escrivaninha junto da janela, com as duas prateleiras em cima, onde estao os dicionários, algumas fotos e enfeites e o vasinho com flôres em cima da mesa. Parece que se nao tenho um lugar de trabalho com esta disposicao a características, nao vou conseguir produzir nada. Eu sei que a tudo o ser humano se adapta, mas também sei que, se puder evitá-lo, o fará a todo custo. E eu sou um desses, pois apesar de que nao acredito que nao possa escrever na cama, num sofá -com um bom apóio, é claro- ou na mesa da sala de jantar, esse canto com a escrivaninha e as prateleiras é como dizer: "Agora a coisa é séria, este é meu santuário, a "arte final"do meu trabalho como escritora"... Tenho este caderno que posso levar para qualquer lugar -e o faco- porém, estou consciente de que o texto definitivo só será redigido naquele ambiente... E a prova disto é tudo que estou produzindo agora que ele está montado!.
    Definitivamente, sou uma pessoa de rotinas (acoes, espacos, horários, dietas, isto último por causa da minha diabetes, mas na verdade nao me custa nada porque já sou metódica e afeicoada a processos repetitivos) porém, tem vezes em que me pergunto se isto é mesmo tao positivo, pois ser tao apegada a elas me traz algumas complicacoes quando preciso me adaptar a mudancas "obrigatórias", sejam elas de atividade ou lugar. No entanto, a vantagem é que, quando isto acontece e aceito sair da minha zona de conforto, acabo curtindo imensamente -acho que até mais do que os outros- e aproveito ao máximo, considerando-o uma verdadeira vitória. Mas também, após algum tempo, comeco a morrer de vontade de retornar para meu pequeno universo conhecido. Por isso sempre digo que o melhor de sair, é voltar... Mas, é isto um retraso, uma desvantagem, um obstáculo ou, simplesmente, um "modus vivendi" mais comum do que eu penso?... Nao tenho certeza, só sei que preciso desse espaco conhecido para me reciclar, para avaliar e meditar sobre os acontecimentos, para produzir meus textos e, acima de tudo, para me acalmar, me equilibrar, me sentir segura, enraizada.
    Em todo caso, de uma coisa sim tenho certeza: a nossa identidade nao está somente no que somos ou fazemos, mas também no lugar onde estamos.