sábado, 17 de maio de 2014

"Espelhos"

    Quando a gente vai ficando velho, nos acontecem coisas bem interessantes, algumas vezes assustadoras, outras vezes reveladoras, mas é uma experiência que vale a pena, apesar do trabalho que da se acostumar e aceitar as mudancas, sobretudo quando a gente tem a claríssima sensacao de que ainda está com 25 anos!... Acho que o segredo é se adaptar, ficar numa boa e curtir tudo que a vida oferece, porque ela sempre, sempre tem algum presente ou ensinamento para nós, sem importar quantos anos temos.
    E assim, esta quase-velhinha senta-se aqui para compartilhar outra crônica, bem agasalhada, porque está nublado e muito frio hoje, e espera que vocês a desfrutem, porque este é um dos presentes que a vida está me dando neste período: escrever e compartir.


    Às vezes me olho no espelho e levo um tremendo susto. Putz, como estou velha! Me aproximo um pouco, hesitante, e fico mais assustada ainda... De onde saíram todas essas rugas e essas marcas? Quando foi que a minha pele ficou tao flácida? Onde estao as minhas feicoes originais, as pálpebras erguidas e os contornos definidos? Apesar de fazer exercício todo dia, meus músculos parecem ter-se esvanecido e pareco uma gelatina com grumos ambulante. Meus seios, entao, parece que amamentaram a populacao mundial de tao caídos!... Meu Deus, a velhice é algo realmente denigrante e chocante fisicamente, sobretudo quando a gente está emocionalmente convencida de estar ainda com 25 ou 30 anos. É um tapa na moral, um insulto para o coracao que bate e sonha como se tivesse todo o tempo do mundo, um balde de água fria para os planos e as intencoes de produzir e desfrutar a vida. Porque a gente sabe que esses sinais externos significam a chegada da decrepitude, da limitacao, da fragilidade e da dependência. A imagem no espelho me avisa que a morte se aproxima e que nao conseguirei escapar dela. Me lembra que o tempo passou e que ele nao pára por nada nem por ninguém, que agora parece que corre mais de pressa e que tenho menos chances.
    E é justamente por isso que nao posso ficar olhando para ela e sendo tomada pelo pânico ou o desânimo.  Tive uma boa vida -e ainda a tenho- e nao pretendo estragá-la agora me deixando levar pelo derrotismo e o preconceito. É menos tempo? O corpo está mais pesado, mais lento e torpe? Nao pode ser como antes? Bom, pois entao que seja como puder, da melhor forma, adaptando-se, entregando-se ao processo sem raiva nem tristeza, mas com generosidade e gratidao, espremendo ao máximo o sugo deste restino que ainda temos, sempre na luta para sermos felizes.
    Acho que de agora em diante vou preferir me olhar no espelho da minha alma, pois ele me devolve uma imagem que ultrapassa meu corpo decadente e me faz acreditar que chegarei digna a produtivamente ao final. E saber disto é tudo que preciso para seguir em frente e ser feliz.

sábado, 10 de maio de 2014

"Sonhos nao sao de pedra"

    E finalmente, ontem desencantei, sentei aqui e em aproximadamente uma hora escrevi meu conto. Que tal? Promessa cumprida... Bom, ele já estava quase escrito na minha cabeca, entao nao foi tao difícil assim. Acho que às vezes é questao de se fazer o ânimo, montar o cenário, meio que se obrigar a botar a cabeca no assunto e, simplesmente, sentar para escrever e ver no que da. A arte e a inspiracao também precisam de um pouco de exercício e disciplina, acreditem... E já estava fazia tanto tempo com esta ideia na mente que foi incrívelmente fácil escrevê-la.
    Entao, vao para pazaldunate-estorias.blogspot.com e curtam!
   E aqui vai a crônica da semana. Já perceberam como estou criativa e produtiva neste fim de semana? Deve ser a neblina que hoje cobre a cidade e deixa a gente com a cabeca cheia e ideias. Ou entao é pelo dia das maes. É meu jeito de comemorá-lo: escrevendo.



    Cada dia é um novo comeco, literalmente. Esta afirmacao nao tem nada de poético ou idealista. É uma realidade absolutamente concreta e possível, pois tudo está renovando-se constantemente - e isto já foi até comprovado cientificamente- e nós podemos entrar neste fluxo sem fim e aproveitar esta energia transformadora para nos refazer, para recriar nossos universos, criar novas oportunidades, abrir novos caminhos. Podemos mudar de ideia cada entardecer y acordar no dia seguinte com novos objetivos e linhas de acao. Podemos virar a página cada amanhecer e preparar-nos para outros desafíos e outras vitórias. Cada manha podemos mudar as nossas táticas, nosso ponto de vista, as dinâmicas e os processos com os quais regemos nossa vida. O que nos impede? Achar que nao temos o direito, que nao merecemos, que é proibido mudar de ideia, que a punicao por errar é permanecer para sempre no error, que os planos têm de ser seguidos contra vento e maré, mesmo que nao funcionem, que mudar de ideia é sinal de fracasso, de fraqueza, de inseguranca, de imaturidade... Mas, quem mais lúcido e adulto do que aquele que tem  coragem de se deviar do caminho original para lutar pela sua felicidade e realizacao, mesmo que isto signifique comecar de novo? Os sonhos nao sao de pedra! Eles nascem, crescem e se transformam junto conosco, pois precisam estar vivos para que formem parte da nossa vida, para que possamos segui-los.
    Por isso cada dia é uma nova oportunidade, um novo comeco que nao podemos deixar escapar por ficarmos presos ao medo das mudancas, do que os demais vao falar, dos projetos de outros. Toda manha podemos fazer uma promessa a nós mesmos -a mesma de ontem, que nao conseguimos cumprir, ou uma nova- e lutar para torná-la realidade, porque o novo é o que nos impulsiona, nos desafia e mesmo que a promessa ou o projeto de hoje sejam os mesmos de ontem, se os encaramos como se fosse a primeira vez, como se se tratasse do nosso primeiro movimento, nao nos parecerá pesado ou entendiante, rancoso. Nao, vai formar pare deste novo dia, deste novo comeco, e assim jamais perderá a sua frescura.
    Ao abrir os olhos amanha direi, como o coelho Pernalonga: "O que há de novo, velho?"...

domingo, 4 de maio de 2014

"Mensagens"

    Até eu estou comecando a olhar feio para mim mesma, pois continuo sem cumprir a promessa de escrever e publicarr um novo conto, mas é que parece que sempre aparece alguma coisa que me impede de fazê-lo. O que foi esta semana? Uma tremenda crise de cólon por ter comido um monte de porcarias deliciosamete diabólicas que quase me deixaram em estado de coma e, é claro, com a inspiracao indo pela patente abaixo... Eu nao sei até quando vou continuar a cometer estes pseudo-suicídios gastronómicos, ou até quando vou aguentar me envenenar e pagar por fazê-lo. A gente é muito idiota às vezes, e tem demasiada pouca forca de vontade e juizo, pois faz as coisas erradas sabendo perfeitamente o que vai acontecer. E acontece.
    Entao, já que estou comecando a me sentir melhor e mais animada, vamos ver se esta semana consigo sentar-me a escrever o famoso conto. Já tenho até as primeiras frases!... Mas nao vou prometer-lhes nada ainda. Se a coisa sair, lhes aviso por face ou aqui mesmo, ok?
    E antes de que seja tentada por alguma outra porcaría, aqui vai a desta semana:



    A vejo todo dia estampada na parede do Instituto Nacional. Algum estudante rebelde e insolente, num momento de desafio à autoridade -qualquer autoridade- deve ter-se encarrapitado num caixote para escrever com tinta preta e letras garrafais esta palavra, provavelmente dirigida aos seus companheiros de ocupacao ou protesto: "Ânimo!", está pixado, onde todos podem ler... Mas o que este rapaz nao sabia era que, se bem ele tinha uma intencao ao escrever, no fim, seu apoio aos colegas acabou se transformando num incentivo para todos nós que, às vezes angustiados e cheios de preocupacoes, passamos na frente de este prédio. "Ânimo!", nos grita o spray preto, e ao vê-lo parece que a alma da gente fica mais leve, os passos mais ágeis, aparece a sombra de um sorriso lá no cantinho da boca. É um recado direto, como um tapa, um gesto desafiador e otimista. É a forca de um jovem como legado para todos. Talvez seja o mesmo que, no muro do prédio da frente escreveu: "Meu pai conhece mais seu trabalho do que a mim", como uma desculpa para ser rebelde e insolente, para exigir, para nao perdoar. Mas eu me pergunto quantos pais passaram diante daquele muro e, nem que fosse pelo canto do olho, leram a mensagem e ficaram pensando em seu próprio comportamento... Assim também a declaracao de um outro moleque, do lado do portao da garagem: "A minha mae me acha lindo". E imagino quantas pessoas talvez perceberam que nao estaria demais elogiar os outros de vez em quando... E "Se teu deus se veste de ouro, desnuda-o" também deve ter deixado muita gente pensando...
    Às vezes é interessante, e revelador, parar por alguns segundos para ler estas mensagens e perceber que -mesmo se de um jeito pouco ortodoxo- podem estar dirigidos a nós para nos fazer refletir, mudar atitudes, tomar novas decisoes e resolver conflitos; às vezes sao uma resposta ou uma verdade que precisamos perceber.
    Tudo ao nosso redor está cheio de mensagens, de respostas, de convites à reflexao e à mudanca, de alertas e consolos, de incentivos à coragem e à fé. Basta saber olhar.

domingo, 27 de abril de 2014

"Os dois mais felizes do planeta"

    Eu sei que tinha-lhes prometido um novo conto, mas com a chegada do frio tenho andado meio com preguizinha, tenho que confessar. Parece que a inspiracao da gente fica meio tímida. Agora, se a isto lhe acrescentamos o fato de andar pensando num jeito de solucionar um problema familiar quase insolúvel, aí a coisa fica féia mesmo... Mas como nao gosto de prometer e nao cumprir, esta semana vou me esforcar e vou sentar aqui, nem que seja em cima do aquecedor, de luvas e gorro de la, e vou escrever esse conto, porque nao adianta querer que as visitas aos meus blogs de histórias aumentem se nao publico nada, nao é mesmo?... Entao, maos à obra!



    Hoje eu vi um cachorro feliz. O pequeno beagle vinha pulando e latindo na frente do seu dono, um rapaz alto e moreno, de bigode e compleicao forte, que o segurava da coleira enquanto sorria. O filhote parecia um redemoinho, era uma permanante explosao de felicidade e rabo abanando. Corria pela calcada, pulava nos canteiros e cheirava tudo, perseguia às pombas e se aproximava, insolente, dos outros cachorros que também passeavam pelo parque a essa hora, disposto a fazer amizade com todos. Corria e cabriolava ao redor deles, latindo alegremente até quase deixá-los surdos. Seu dono o contemplava com um ar misto de indulgência e orgulho, e de vez em quando, o beagle dava-lhe uma olhadela, como para se certificar da sua aprobacao. Olhando para eles de longe, formavam um par bem díspar: ele, muito grande. O cao, muito pequeno.
    Logo chegaram numa parte do parque onde tinha só grama e umas enormes pedras espalhadas ao acaso, que faziam as vezes de esculturas e já estavam todas pixadas. Nesse momento deixei de avistá-los porque virei para o lado oposto, mas quando acabei de dar a minha volta correndo, os vi novamente. Ali estavam, divertindo-se aos montes: o rapaz tinha encontrado um galho e o atirava longe. O cachorrinho saía em disparada, latindo, e o recuperava, trazendo-o de volta para seu dono todo orgulhoso. Deste jeito estiveram um bom tempo, ambos totalmente abstraidos do tumulto da cidade, da pressa e a indiferenca. Brincaram de pega-pega, de esconde-esconde, de se fingir de morto, beberam água, deitaram na grama e fingiram uma luta... Eram todo um espetáculo, um desfrutando da companhia do outro e aproveitando aquele tempo, entregando-se sem receios à realidade e felicidade do momento. Nada os preocupava a nao ser o presente e o carinho que compartilhavam.
    Virei pela última esquina do sendero de pedrinhas e os dois ficaram atrás de mim. Sorri, sem saber se me sentia alegre ou meio triste... Quantos momentos assim, mágicos, deixamos passar ao longo da nossa vida! Quantas vezes os adiamos, os estragamos, os esquecemos, nao nos permiti-mos vivenciá-los porque nao lembramos que também estamos aqui para sermos felizes! Quantas oportunidades perdemos de partilhar a nossa alegría ou a alegría dos outros!... Nao sei se aquele rapaz era pobre, rico, se estava doente, desempregado, cheio de conflitos e problemas para resolver. Só sei que, nesse momento em que eu o vi, era o cara mais feliz do planeta. E seu cachorrinho também.

sábado, 19 de abril de 2014

"Aproveitando os pecados"

    Semana Santa deixa a gente pensando um monte de coisas: na história, nos milagres, nas intencoes e significados de tudo que aconteceu com Jesus. Quebramos a cabeca pensando de que jeito podemos realmente aplicar seu exemplo e seus ensinamentos em nossa vida, e nos parece difícil demais porque sempre dizemos a nós mesmos que, é claro, para Ele deve ter sido fácil pois era o filho de Deus e nós somos meros mortais cheios de fraquezas e falhas. Mas esquecemos que, enquanto esteve entre nós, Jesus era um homem comum, que conheceu todas as nossas debilidades e tentacoes, todo o nosso egoismo e vaidade, nossa ambicao e covardia,. Ele passou por tudo aquilo naqueles 40 dias em que ficou no deserto, e em Ghetsemani, quando uma crise de pânico quase o fez desistir de tudo... Entao, nao andava por aí se gabando da sua santidade e perfeicao, e sim agindo como aquele que compreende e porque sofreu na própria carne os pecados humanos. Por isso mesmo era tao misericordioso e empático, por isso sempre perdoava e dava mil chances de consertar o erro cometido. Nao era por se sentir superior, mas por saber exatamente tudo que os homens passavam e penavam. Ser bom nao é f´´acil, pois há muitas pedras em nosso caminho, mas se Jesus nao se rendeu, nós tampouco podemos fazê-lo. De posse da sua absoluta e mortal humanidade, Ele nos demonstrou que se pode ser bom, apesar das nossas falhas. E por que nao, elas mesmas nao podem nos ajudar a nos tornar melhores?...


    Lembro do rebulico que causou Terezinha de Lisieux quando declarou que Deus gostava dos nossos pecados porque podia aproveitar-se deles para fazer o bem. Bom, eu também fiquei totalmente surpresa com esta afirmacao, pois até entao, tinha sido ensinada a acreditar que absolutamente nada de bom ou positivo poderia resultar jamais de um pecado... No entanto, com o passar do tempo e através da minha própria experiência, tenho comprovado que Terezinha tinha toda a razao. O que interessa para Deus é que se faca o bem, nao importando se, às vezes, os motivos de quem o faz sao pouco ortodoxos ou o faz de forma inconsciente. Se dou uma esmola ou faco alguma contribuicao ou sacrifícico que ajude os demais seja para me auto promover, receber elogios ou me sentir superior, nao é isso que interessa. O que vale é que o bem foi feito e teve resultados.
    E é curioso e meio desconcertante -engracado até- perceber os motivos, por vezes retorcidos e egoístas, que podem nos levar a ser bons, a ajudar, a nos sacrificar por alguém, a sair do nosso mundinho e nos aproximar do sofrimento dos outros. Porém, pensando melhor, talvez tudo isto tenha a sua lógica, já que esta falta de desinteresse nos ajuda a nao ficar arrogantes, pois no fundo sempre sabemos por que agimos desta ou de outra maneira, entao nao podemos nos envaidecer por fazer o bem se temos consciência de que o que nos levou a agir tao bem nao é lá um motivo muito "santo".
    Acredito que deve ser mais ou menos desta forma que Deus tira proveito dos nossos pecados, e com certeza continuará a fazê-lo até que percebamos que fazer o bem pelo bem nos deixa tao felizes e realizados como se o fizêssemos por puro egoísmo.
  

sábado, 12 de abril de 2014

"Detalhes técnicos"

    Parece que finalmente a terra decidiu ficar quieta um pouco, pelo menos aqui, entao podemos dormir um pouco mais tranquilos. Teve um tremorzinho ou dois, mas nada para se alarmar. Este prédio é novo e foi construido com todas as novas normas anti terremotos, entao o que mais acontece é que balancamos adoidados. Tanto, que às vezes achamos que estamos passando mal -tipo queda de pressao ou coisa parecida- e demoramos um pouco para perceber que nao é nada disso e que, na verdade, está tremendo.  Nao é a coisa mais agradável do mundo, mas é isso mesmo e sempre será, entao tem que se conformar e confiar que as construcoes resistirao, ou que os tremores nao serao tao violentos... Porém, todo o resto neste país compensa as chacoalhadas... Eu sei que estou ficando chatinha ao respeito, mas é que depois  de 30 anos longe da terra natal, o único que se pode sentir por ela é amor, apesar de qualquer coisa. Sigam meu conselho, voltem, sempre voltem. Melhor, tentem nao ir nunca embora, pelo meno nao para sempre. Nao tem nada como a pátria, como bem dizia meu pai.
    E ainda estremecida, porém confiante, aqui vai a crônica de hoje.  Vou ver se esta semana escrevo um novo conto e o posto semana que vem.



    Sempre fui uma pessoa que encontra saída para os problemas e me sinto muito contente e orgulhosa disto, pois é deste jeito que a gente se transforma numa autêntica lutadora e numa vencedora. Às vezes posso demorar um pouco para entender, aceitar  a briga e encontrar a solucao para atingir meu objetivo, mas nunca desisto. Sempre acabam me ocorrendo vias alternativas porque acredito firmemente que em todas as situacoes -menos na morte, como dizia a minha avó- há portas que abrir, existem desvios, caminhos inesperados e engenhosos que podem ajudar a gente a sair de momentos problemáticos. Basta abrir-se para estas possibilidades/oportunidades, acreditar que sim existem e estao à nossa disposicao se escolhemos lutar por aquilo que desejamos ou sair de um conflito. É a única forma de se acostumar a enxergá-las e utilizá-las. Acreditar que se pode é o primeiro passo para a vitória. Trata-se de um tipo de disposicao que precisamos aprender a ter e usar desde pequenos diante dos acontecimentos desfavoráveis. Todos temos esta disposicao, basta botá-la para funcionar. É claro que é muito mais fácil  sentar-se e lamentar a má sorte, a crueldade da vida e a indiferência dos outros, mas, na verdade, esta atitude nao nos leva a lugar algúm a nao ser à auto-piedade, que é um dos piores estados de espírito que se pode ter. Acreditem, eu sei bem. Presentar batalha é sempre mais difícil, mas no fim, compensa muito mais do que ficar esperando a piedade dos demais e botar a culpa neles se as coisas nao dao certo ou se nao ajudam como esperávamos. A gente tem que se valer, precisa querer lutar por si mesma, precisa querer vencer. Podemos passar por momentos de escuridao e desalento, é normal, porém, a graca é conseguir sair deles, acender a luz, abrir a porta, levantar-se e olhar para frente, reencontrar o caminho, sem medo de errar, porque o erro é permitido, já que sempre se pode voltar atrás. Agora, desistir... Isso nao é uma opcao.
    Se nao tenho um computador ainda, escrevo à mao, como fazia antes, até que possa comprar um. O importante é nao perder as inspiracoes, pois elas sao um presente divino e irrepetível.Se nao consegui aquele emprego, trabalho numa outra coisa até aparecer algo melhor, mas nao fico a chorar e me desesperar. Meu namorado foi uma tremenda desilusao? Mando ele passear e aproveito a liberdade para me divertir e manter o coracao aberto. Viro a página. Estou com pouca grana? Aperto o cinto e poupo, sabendo que este sacrifício valerá a pena e me manterá tranquila e segura. Fora isso, saibam que uma vida modesta pode ensinar-nos muita coisa à respeito de valorizar o que é realmente importante para a verdadeira felicidade.
    Nao podemos perder tempo na vida lamentando-nos e deixando-nos derrotar por estes "detalhes técnicos!".
    

sábado, 5 de abril de 2014

"O zorzal"

    Bom, estou descobrindo que, entre um chacoalhao e outro, ainda é possível se inspirar e escrever, assim como cozinhar, varrer, sair para passear com as cadelinhas e fazer todas as atividades de um dia normal. Porque nao se pode parar, já que a vida continua apesar de tudo. Infelizmente -e apesar do que alguns idiotas andam dizendo por aí- nao se pode predizer quando virá o próximo tremor, entao tem que seguir em frente, pois nao podemos deter a nossa existência à espera da próxima movimentacao da terra. Os chilenos somos corajosos e teimosos, ganhamos todas, nos erguemos sempre, por isso continuamos, com fé e otimismo; levantamos, vamos trabalhar, cuidamos das criancas, da casa, do negócio, da empresa... É deste jeito que se aprende e se cresce, desafiando a adversidade e dobrando-lhe a mao, por isso este é um grande país, mesmo se eu sou suspeita para falar. Temos uns terremotos e passamos uns tremendos sustos? Sim, porém nada nos faz desejar mudar de terra porque amamos esta cordilheira, este mar, e estes sapateados do chao que nos deixam com o coracao na mao. É que tudo mais neste país é maravilhoso. E como vocês sabem, ninguém é perfeito, entao podemos perdoá-lhe este "defeito" à nossa pátria. Nao lhe perdoamos coisa pior a quem amamos? Entao...
    E enquanto a terra permanece sem se mexer (pelo menos aqui na zona central, porque no norte a coisa parece batedeira) aqui vai a crônica desta semana:


    Sempre que passo sob uma árvore e escuto o inconfundive canto de um zorzal (o equivalente ao sabiá brasileiro) ergo a cabeca e o procuro com o olhar, sorrindo. Porque este passarinho féio, de penugem marrom, olhos esbugalhados e enorme bico amarelo, patas compridas e desengoncadas e movimentos sempre nervosos e nada graciosos, é muito especial para mim. Seu trinado é como a voz de um anjo na escuridao, o som da salvacao, da realidade palpável e amigável.
    Lembro perfeitamente a primeira vez em minha vida em que percebi seu canto: quando tinha doze anos e peguei caxumba. Tive uma febre altíssima, que me mantinha jogada na cama, sem vontade nem de beber água e cochilando o dia todo. A coitada da minha mae chegava do trabalho e ia ficar comigo, tomava a minha temperatura, me fazia engolir um pouco de soupa ou gelatina, ligava para o médico, botava compressas frias na minha testa e trazia a tevê para meu quarto para que eu me distraísse um pouco. Passou uma semana dormindo nos pés da minha cama, toda torta e agasalhada apenas com um cobertor, pois como à noite subia a minha temperatura, de repente eu era tomada por uns delírios que me deixavam apavorada; como aquele de que o empregado de uma vizinha estava espionando-me pela fresta da persiana com uns olhos vermelhos e murmurando palavras ininteligíveis. Na verdade, o coitado nao era mais do que um homenzinho franzino, com cara de rato, dentes tortos e cabelo oleoso, baixinho e encolhido, que vestia sempre de azul e caminhava como se alguém o estivesse perseguindo. Era verdade que tinha algo de muito sinistro, mas nao acredito que fosse lhe ocorrer ficar na minha janela para me amedrontar.
    Mas a coisa é que eu fiquei obcecada com esse assunto de que ele estava ali, observando-me, esperando o momento em que eu estivesse sozinha no quarto para irromper e me fazer algo muito ruim... Coisas de crianca com quarenta graus de febre... Mas como nao sossegava e chorava de medo quando o céu escurecia, a minha mae decidiu ir dormir nos pés da minha cama. No entanto, e apesar do alívio  que a sua presenca e seu calor me provocavam - mesmo com o desconforto de ter de me encolher para que ela coubesse- meu terror continuava e mal conseguia cochilar por alguns minutos, com os olhos pregados na fresta da minha janela, onde continuava vendo a silhueta daquele homem maligno... Sentia a noite transcorrer com uma lentidao angustiante, rodeada por aquele silêncio esmagador que parecia me sufocar, e me cobria até a cabeca para que seus dedos pegajosos nao me alcancassem, rezando para que acabasse logo e a luz do sol me trouxesse o alívio...
    E uma manha, ao longe, talvez nos galhos de uma árvore na rua, escutei um gorjéio, alto e claro, imperioso feito uma diana chamando a madrugada. Era poderoso e ao mesmo tempo doce, melodioso, e parecia atravessar a nascente claridade feito uma flecha e entrar direto em meu quarto, meus ouvidos, em meu coracao, trazendo-me uma maravilhosa sensacao de alívio, de seguranca, mas principalmente, de realidade. Era o canto do zorzal... E, efetivamente, pouco depois, podia ver os primeiros raios de sol levar embora aquela sombra na minha janela. O quarto clareava e já podia distinguir as coisas que conhecia tao bem e que me eram tao caras: a escrivaninha, a máquina de escrever, os cartazes, as plantas... A minha mae acordava também, me perguntava como tinha amanhecido, media a minha temperatutra e iba ao banheiro se preparar para ir ao trabalho. Pouco depois passavam meu pai e a minha irma para saber como eu estava, chegava a empregada e a casa se enchia com o aroma do café, as torradas e os ovos mexidos com bacon. Eu continuava na minha cama, relaxada e confortável, segura. E de repente, a partir daquele dia, nunca mais tive medo de que a noite chegasse, porque agora tinha certeza de que o zorzal estaria ali, cantando para afugentar meus pesadelos e anunciando a chegada de um novo dia.
    Por isso sempre presto muita atencao quando comeca a amanhecer, pois ainda preciso escutar, entre a algazarra dos pardais, os trinados do zorzal nos galhos das árvores, porque eles me trazem o novo dia, as novas expectativas e promessas, o ânimo, a coragem, o otimismo. Suas notas melodiosas e poderosas afastam todo mal de mim.
    Quem precisa de um despertador mecânico quando se tem um zorzal na árvore vizinha?