segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Mestre e discípulo

Conhecem aquele ditado que diz: "Não cante vitória antes do tempo?"... Bom, eu caí nessa ao achar que após a última apresentação da escola de teatro da Fundação poderia descansar nos finais de semana como todo mundo e ir trabalhar só para cumprir horário até o dia em que chegassem as nossas férias coletivas... Quem me dera! A minha felicidade durou pouco, feito coisa de pobre. Eu já estava me preparando para curtir tardes de silêncio e frescor em minha sala arrumando papéis, organizando figurinos, revisando material de aula e esboçando alguns projetos para o ano que vem, sem desconfiar que meu chefe estava em sua sala traçando planos bem diferentes para mim e meu grupo... E eis que passei o fim de semana -nas horas em que não estava ensaiando e no domingo em que supostamente deveria ter descansado- escrevendo uma nova peça. Desta vez sobre o natal, que meus alunos vão apresentar num cenário ao ar livre (por isso as vozes serão gravadas nesta quarta-feira) do dia 5 ao dia 20 de dezembro à noite. Não digo que não gostei, porque adoro criar, ensaiar, dirigir e apresentar, e prefiro isso a ficar quatro horas à toa numa sala vazia, porque devo admitir que uma hora o trabalho de arrumação e planejamento ia acabar e eu ia ficar ociosa, coisa que detesto. Então, mesmo tendo de esquecer o descanso por mais um tempo, estou feliz com este novo desafio, mesmo se um pouco preocupada com meus alunos, porque na verdade serão eles a sofrer a maior pressão e o estresse em cada apresentação. Sei que eles ficaram felizes com a proposta e estão muito a fim de apresentar, mas não sei... Já estão tão cansados e sobrecarregados com provas e trabalhos... Bom, suponho que essa é uma das vantagens da juventude: sobra fôlego para fazer tudo e mais um pouco! Já eu, estaria numa cama de hospital se tivesse tantas apresentações ao mesmo tempo e sem  intervalos para me recompor!
    E aproveitando esta manhã livre e ainda fresca, vou postar duas crônicas, só para compensar a bagunça que está este blog. E aproveito para comunicar que postei mais um pedaço de "Silvestre", então, podem saber outro pouco sobre este frade tão contraditório que terá o encontro da sua vida em breve. Um evento que transformará por completo a sua existência. Adoraria escrever toda a última parte de uma vez, mas se digito por muito tempo  os meus braços, mãos e dedos começam a doer demais e preciso parar... Mas vamos ver, quarta vou no médico com a minha montanha de exames e espero que ele me dê algum tratamento que melhore esta situação, porque já está ficando bem chata.
    Então, aqui vai a primeira crônica.


    Sinto que amar um discípulo, um aluno, é totalmente diferente de amar um amigo, um irmão, um cônjuge, um filho, pois ele não é como nenhum deles e, mesmo assim, talvez seja como a somatória de todos eles. O elo divino e profético que normalmente aproxima e une mestre e discípulo não é do mesmo tipo que envolve pais, filhos, irmãos ou esposos. Este pode tornar-se, às vezes, confuso e muito possesivo, pois implica um tipo diferente de convivência, de partilha, um tipo de experiência íntima que não se tem com um discípulo, com o qual se vivencia um quê distante e impessoal que é o grande segredo da relação e a base para uma dualidade harmoniosa ensino-aprendizado. Há um trabalho específico a ser realizado, uma procura conjunta para atingir a luz, a maturidade, o conhecimento como ser individual e cósmico que formará parte do crescimento e da história de toda a humanidade. Há uma semente a ser plantada e cultivada (como em todo relacionamento) uma personalidade e um corpo a serem lapidados de uma forma absolutamente distinta da realizada quando existem laços de sangue ou afetivos. Na relação mestre-discípulo há um saber específico a ser desenvolvido, um objetivo claro, uma sensibilidade, uma abertura e compaixão que raramente são vivenciados num outro tipo de envolvimento. Existe uma mensagem a ser passada e a prática de disciplinas e experiências que somente se dão aqui. Discípulo e mestre compartilham em sua ligação interesses bem maiores do que os meramente humanos e para isto, tem de ser desenvolvida uma espécie de "frieza" e "praticidade" que favorecem a sobrenaturalidade das suas ações e objetivos. Existe entre eles um compromisso que não inclui somente eles dois, um amor impessoal que permeia seu comportamento mútuo e com os outros, um bem-querer, uma humildade e respeito que quase nunca são ensinados ou cultivados na sociedade em que vivemos, nos relacionamentos familiares, profissionais ou sentimentais. Já mestre e discípulo, enquanto mais se doam para os outros -ao invés de um para o outro- mais unidos estão e mais fortes são.
    Além da carne e da banalidade -porém sem perder as suas características de humanidade plena- das vidas comuns que levam, das lutas prosaicas e das decepções, das perdas, quedas, mortes e ressurreições, a ligação do mestre com seu discípulo navega no mar do espírito, que é feito de silêncio, aceitação, paciência e compaixão.

sábado, 20 de novembro de 2010

O tempo do mestre

Hoje, excepcionalmente, estou com o dia livre até às 18:00h, que é quando teremos o nosso ensaio geral para a apresentação de amanhã, a última do Musical neste ano. Semana que vem é a última da escola de teatro, com a apresentação da peça da turma infanto-juvenil da qual eu estou tomando conta -e que está começando a ficar muto boa- Só espero que depois dela possamos ter algum descanso até sairmos de férias, lá pelo dia 20 de dezembro. Se supõe que à partir do dia 28 trabalharei em horários "civilizados" e não terei mais surpresas do tipo: "Amanhã tem uma apresentação!", então pretendo começar a botar em dia meus escritos (incluindo a história de "Silvestre", que já está começando a parecer uma novela da Globo!) e meus diários, porque outro dia percebi com espanto, que estou começando a ficar sem material para postar aqui e enviar ao jornal... Preciso desesperadamente de férias para recuperar o controle e a rotina saudável da minha vida!... Espero também que com o resultado dos meus exames na mão solucione este problema das dores no corpo e assim me sinta melhor disposta para criar e consiga descansar direito, porque estou precisando. Dia 29 ou 30 vou no laboratório e no dia 1 de dezembro aterrizo no consultório do médico para ter as minhas respostas. Estou meio estressada com este assunto, mas estou tentando não me preocupar antes da hora, porque isso só vai aumentar meu mal-estar. Não tenho outra coisa a fazer a não ser esperar e, para manter a cabeça no lugar, nada melhor do que escrever, não é mesmo?
    Então, vamos pôr em prática a idéia. Aqui vai a crônica desta semana, finalmente em dia:


    No meio do saguão iluminado e barulhento do teatro, lotado de público, artistas, críticos e repórteres, vejo a mim mesma, feito um patinho feio no meio dos cisnes, meio deslocada entre esta multidão de professores muito experientes, conhecedores das mais modernas e elitizadas técnicas, engajados, artistas eles mesmos, com anos de prática e pesquisas, formados em grandes universidades, que já leram, viajaram, conheceran, experimentaram, ministraram para bailarinos de alto nivel, desfiando aquele palavreado tão cheio de nomes famosos e termos técnicos que chega a ser assustador... Pessoas mais velhas, com aquela aura de "monstros sagrados", versados nos mais diversos e profundos conhecimentos sobre dança, biologia, cinética, filosofia, política, história, métodos de ensino e artes em geral... E aqui estou eu, a zebra do páreo, que nem consigo acabar de ler um livro sobre a história da dança moderna sem ter uma enxaqueca, e me sinto totalmente perdida no meio das suas pomposas conversas e dissertações teóricas tão avançadas... Olho em minha volta, escutando aquele som que parece uma colméia em frenética atividade e, de repente, percebo que ninguém está falando do ser humano, das suas peculiaridades, do seu potencial e de como ele pode ser aproveitado e incrementado para que o aluno não se torne somente um ótimo bailarino, mas também um ser humano melhor, um artista capaz de dançar os movimentos da sua alma e da alma de todos os homens. Todos aqui enchem a boca para defender seus métodos e proclamar seus sucessos, mas ninguém diz uma só palavra sobre o alvo de todas estas discussões: o aluno, a pessoa; o que ele tem a dizer através da sua movimentação... Então, respiro fundo e vou sentar num canto da sala, no único pufe que sobrou, com a minha coca-cola numa mão e o programa desta noite na outra. O abro e dou uma rápida olhada nas fotos e nos nomes das performances e dos grupos e solistas. Nesse instante, me pergunto se estes professores e coreógrafos que tanto se gabam dos seus trabalhos conhecem realmente as pessoas que os executam, ou se estão puramente interessados em seu rendimento técnico, nos aplausos, no prêmio... "Bom", digo para mim mesma, "suponho que é para botar esta questão na mesa que eu estou aqui, com toda a minha miserável ignorância". Morro de medo de encará-los, encarrapitados como estão em seus pedestais de sapiência, e despertar a sua arrogância e desprezo diante do que vim dizer, que é tão simples e óbvio, ingênuo até, mas completamente verdadeiro e necessário: a blasfêmia de deixar a técnica em segundo plano para ocupar-se da humanidade vai fazê-los cambalear e enrubescer, com certeza!...
    Mas eis aqui que, quando o momento chega, de súbito meu coração acorda e se aquece, se alegra, cresce atrás das minhas costelas, e a minha boca se enche de doçura, de sabedoria, de compaixão, de uma incontrolável felicidade, pois estou prestes a falar sobre o mais precioso bem que nós, como mestres, recebemos: o ser humano e a sua existência, seu ser, seu estar, seu dizer... E para meu espanto -e o deles também, acredito- consigo conversar, expor meus pontos de vista, explicar com cristalina clareza as minhas técnicas, meus exercícios de aula e seus propósitos e resultados, meus objetivos, meus motivos! Consigo me fazer entender e ainda suscito uma onda de comentários e perguntas, uma curiosidade totalmente inesperada com respeito a este meu trabalho absolutamente original e, pelo visto, eficiente!... Eles escutam, se abrem, percebem, até concordam e me tratam com respeito e uma nova consideração... E eu me pergunto, pasma, quase assustada: "O que estou fazendo? Quem sou eu realmente? O que toda gente está vendo? Não é o suficientemente óbvio? Como foi que cheguei aqui? Eu,  Zé ninguém de uma cidadezinha do interior, dando palestra para estas sumidades, respondendo às suas perguntas num debate?"... Mas de donde vem todo este embasamento, esta certeza, esta clareza que não admite contestação, que parece ter todas as respostas necessárias para que meu trabalho ganhe apoio e continue? De onde nascem a lógica e a verdade que permeiam as minhas palavras e gestos, a minha sernidade, a minha certeza?... E lembro daquele capítulo da história de Francisco de Assis em que ele envia seus discípulos para pregar a pobreza, a obediência e a castidade pelo mundo afora... "Não vos aflijais pela vossa ignorância. No momento certo, Deus derramará a Sua sabedoria pelos vossos lábios", dizia ele para os preocupados irmãos, alguns dos quais nem escrever sabiam, e eles nunca foram desapontados.
    Então, chego à conclusão de que  quando optamos por nos entregar aos planos divinos para cumprir nosso destino,  Deus age em nós tomando conta dos nossos atos e palavras, da nossa inspiração e criatividade, transformando-nos, guiando-nos, tocando-nos, despertando-nos... Todos temos nosso tempo de mestres, certamente, e não podemos nos furtar a este fato, pois asim como é vital aprendermos a ser discípulos, também precisamos aprender a ser mestres, pois teremos que desempenhar estes dois papéis ao longo de nossa vida em diferentes situações. Mestre e discípulo formam um corpo só. Cabe a nós saber quando é o momento de cada um deles agir.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Momentos de glória

 Bom, no fim de semana que passou encenamos nosso ante-penúltimo espetáculo e, graças à Deus, foi um sucesso. Nem nós mesmos esperávamos aquela quantidade de público! Até o meu chefe veio assistir!... Acho que a divulgação que os próprios alunos fizeram funcionou muito bem; a net é boa para isso também... Tinha pessoas no saguão -quando dei uma espiadinha pela janela da cabine- que eu nunca tinha visto no teatro, todos jovens e vestidos de gala, bem educados e dispostos a se divertir. Não houve nenhum incidente chato durante a apresentação -como costuma acontecer quando o público é composto por jovens- e acho que curtiram mesmo a peça. No fim, até aplaudiram em pé!... Pôxa, como é bom ver que a platéia reage tão positivamene a um trabalho nosso!... Ainda nos restam duas apresentações antes de encerrar nosso ano letivo, uma do musical e a dos alunos da minha colega que foi demitida; e confesso que esta última ainda me preocupa, pois apesar da inclusão de alguns alunos do meu grupo adulto no elenco, a coisa ainda não está como eu gostaria, mas suponho que vou ter de me resignar, já que tem coisas que não vou poder mudar, pois está muito em cima da hora: manias, vícios e dinâmicas da outra professora que não têm nada a ver com meu estilo de trabalho e que estão afetando o resultado final... Em fim, preciso lembrar que se trata de um trabalho de conclusão de curso e que ninguém vai morrer se não sair perfeito. Estamos fazendo todo o possível para salvar a peça e para que estes alunos tenham a sua apresentação de encerramento com qualidade e prazer, e é isso que conta: fazer o nosso melhor para que todos brilhem.
    Hoje tenho marcada uma deliciosa massagem às 19:00 h, para ver se melhoram um pouco estas dores no corpo que estão me tirando o sono, literalmente. Fiz uma bateria de exames para ver de que se trata e encontrar uma solução que melhore a minha qualidade de vida, porque a coisa está feia, acreditem. Só espero que não se trate de nenhum tipo de doença degenerativa e sim de artrose ou reumatismo tratáveis com remédios e exercícios. Não pretendo entrevar ainda! Tenho muita coisa para fazer! Já basta ter descoberto que sou talassémica, caramba!... E o que é talassemia? É uma falha genética nos glóbulos vermelhos -ou nas hemácias, não peguei muito bem essa parte- que faz com que você tenha quadros recorrentes de anemia. Ainda bem que em mim tomou a forma mais branda, que quase não tem sintomas e é facilmente tratável... Como vêem, a minha família andou conspirando genéticamente contra mim: diabetes, artrose ou reumatismo, talassemia... Mmmm, devo estar pagando algum pecado muito velho e muito grande, vocês não acham? Mas purificação sempre é boa, nos deixa melhores, nos faz avançar mais depressa em direção ao sonho de perfeição.
 Então, antes de que as minhas mãos comecem a doer ainda mais, vou aproveitar para postar a crônica da semana.

    No quintal arruinado e seco da casa abandonada, tomado pelo mato selvagem e o lixo, pelo esquecimento e os vândalos que picharam palavrões e desenhos obscenos nas paredes descascadas e meio  derrubadas, o ipê amarelo floresce. Porque este é seu momento. As janelas de vidros quebrados, que mais parecem os olhos de um cego, o portão enferrujado e sem gonzos, a porta carcomida e esbranquiçada pelas chuvas e o sol e as paredes lascadas e emboloradas não têm poder suficiente para impedir a sua floração e então, ele nos brinda -em meio à miséria e o abandono que o cercam- com este espetáculo de absoluta beleza lá no fim do quarteirão, coroando a esquina feito um guardião do paraíso, firme e ereto, desafiador. Pois quem ousaria olhar para a decadência em sua volta diante das suas cores, da sua harmonia, da luz que dele se desprende neste fim de tarde e que parece atear fogo nos cachos de amarelo vibrante? Um amarelo de vitória, de perfeição, de descoberta e milagre... Este é seu momento de glória e nada pode impedi-lo; esperou pacientemente por ele, passando por todas as etapas, as estações e barreiras, as chuvas e dias frios, por crianças arteiras, por lixeiros, pássaros e formigueiros. Até que, finalmente, a sua hora chegou e ele  impera, magnífico, na paisagem. Depois voltará a ser uma árvore apagada no quintal da uma velha casa abandonada, mas hoje é um milagre para os nossos olhos e eu viro a cabeça para contemplá-lo mais um pouco enquanto me afasto pela rua abaixo... Então, reflito: Quantos destes momentos nós temos ao longo da nossa existência? Quantas vezes podemos nos transformar num glorioso ipê florido que embeleza o cenário e toca o coração dos homens à nossa volta? Quanta perseverança e força somos capazes de reunir e pôr em movimento para conseguir passar por todos os processos e dificuldades até atingir a nossa beleza absoluta?... Pois não importa quanto ela dure ou se depois do apogeu tornamos a ser pequenos e banais, o importante é que ela aconteça, pois a transformação que ela acarreta -em nós mesmos e nos outros- é algo que permanecerá para sempre.
    Amanhã, as flores amarelas cobrirão o chão em volta do ipê e os nossos sapatos as esmagarão, apagando seu brilho e a sua magia; a árvore ficará silenciosa e escurecida, nua, retorcida... Mas, hoje, neste preciso instante, o ipê amarelo é o rei da criação.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

O bônus

Já faz uns quinze dias que tento sentar aqui para escrever e assim não interromper a freqüência das postagens nos meus blogs, mas sinceramente, tem sido  absolutamente impossível. Estou completamente sepultada em trabalho!... Olhando a minha agenda ontem, descobri que TODOS os finais de semana deste mes estarão ocupados com algum espetáculo: se não é o musical, são as peças de encerramento de fim de ano da escola de teatro, o desfile do município (durante o qual pagamos todos os nossos pecados), o espetáculo da escola de ballet, a festa nipo-brasileira e qualquer outra surpresa que meus chefe inventem, sobretudo de última hora. Nossa, como eles adoram isso!... O problema é que por conta desse rolo com o Ciap, todos os contratos dos otros professores foram rescindidos e ficamos somente uns poucos -os concursados- para cobrir todos os eventos que ainda faltam até sairmos de férias (o que, nesta altura do campeonato, começa a me parecer um sonho muuuuito distante) Tudo bem que isso vai nos valer muitas horas extra, mas, sinceramente, posso perceber como os meus alunos estão exaustos, mesmo se sempre animados e dispostos a cooperar. Mas meu chefe às vezes se esquece de que eles não trabalham na Fundação e que têm outros compromissos e deveres e os sobrecarrega com atividades extra aqui. Sei que eles adoram ajudar e produzir, mas acho que está na hora deles -e eu, de quebra- descansarem um pouco, se  recuperarem e reunirem forças para o que os aguarda no ano que vem e que, eu acho, vai ser muito bom e vai requerer bastante dedicação da parte deles. Espero que todo este seu sacrifício e participação lhes renda muita coisa positiva (mesmo se não financeiramente) porque eles merecem.
    O bom de tudo isto é que, a cada fim de semana, vai ser mais um espetáculo apresentado  do qual vamos estar livres, então, a agenda vai começar a ficar um pouco mais folgada, e à partir do dia 28, eu vou trabalhar em horários "normais" (das 14:00 às 18:00) até entrarmos  en férias... Bom, isso é o que espero, mas não sei, não, com esta falta de pessoal e todos esses eventos que ainda faltam... Nossa, será que vou ter de dar uma de Mamãe Noel e passear com as criacinhas no trenzinho do natal????... Deus me livre! Na primeira curva já vou jogar uns cinco ou seis pela janela!... Ou então eles é que vão me enxotar do trem primeiro...
    Bom, e antes de que alguém me ligue convocando uma reunião ou o calor piore e o ventilador desista de esfriar o ar, deixa avisar para vocês que faz uns dez dias postei mais uma parte da história de "Silvestre", então já podem sa ber um pouco mais sobre ele. E agora, aqui vai a crônica da semana passada... ou da anterior, já não sei mais. Este negócio de trabalhar de domingo à domingo me tem completamente desorientada nessa questão das datas... Mas, em fim, aqui vai:


    Dançar, descobrir os movimentos da alma, entrar no ritmo do universo: estas são coisas que parecemos não saber, mesmo sendo vitais para a sobrevivência... Ou será então que as esquecemos ao longo da vida porque achamos que eram fantasías ingênuas da nossa infância e adolescência nas quais não valia a pela investir?... No entanto, se conseguimos nos desfazer de todas as crostas e preconceitos que fomos criando ao cescer, seremos capazes de dançar, de reconhecer os movimentos da nossa alma e expressá-los fielmente para que eles formem parte da eterna e perfeita coreografia  da criação. Esta é uma possibilidade que nasce e morre conosco, mesmo que nunca cheguemos a tomar consciência dela. É como um bônus, um prêmio antecipado ao qual todos temos direito. É parte indivisível do fato de sermos humanos; está embutido em nossa essência e nada do que façamos o tirará de nós. Pois se não, como explicar de onde vem a sabedoria que às vezes ostentamos e que tem o poder de transformar o mundo? Fazemos coisas sem nunca ter visto nem ouvido sobre elas, criamos do aparente nada -de um sonho, de uma visâo, de uma necessidade- galgamos degraus e construímos pontes, desbravamos caminhos impenetráveis com a absoluta certeza de que, no fim, encontraremos algo que nos tornará melhores. Vivemos tomados por pressentimentos, por idéias, por aquela sede de aprender, de descobrir, de criar, de ir adiante e sempre conseguimos superar-nos, sobreviver, continuar... Qual é o segredo? Dar saída a toda esta energia, ouvir as vozes que sussurram em nosso interior. Ouvir e acatar, pois elas realmente existem e têm um objetivo em nossa vida, são indispensáveis para o nosso crescimento. Quem já não teve "aquela sensação"? Quem não sentiu -pelo menos uma vez na vida- aquele "chamado"? E quem, nem que fosse somente durante alguns minutos, não acreditou nele e cogitou deixar tudo para ir atrás daquela voz doce e  poderosa?... E, no entanto, quem persistiu? Quem teve a coragem de perseverar no caminho, de acreditar na visão?... Homens de pouca fé, é o que somos!... Por que procuramos no exterior o que já sabemos que possuímos dentro de nós? O que acontece em nosso interior que não tenha seu reflexo e a sua resposta no universo que nos rodeia? Por que nos negamos tão obstinadamemnte a aceitar e vivenciar esta ligação íntima -humana e divina- entre o homem e a criação?... A certeza espiritual das nossas escolhas sempre terá a sua recompensa, por isso não devemos deixar que nehuma dúvida nos paralise. Não somos os primeiros nem seremos os últimos a procurar, pois as nossas necessidades eram e continuam a ser as mesmas, porém, parece que, de tempos em tempos, preferimos esquecer-nos delas e de como preenchê-las para poder continuar a nossa caminhada sem tanto sofrimento, sem tantos tropeços e desvios. Não sei por que temos estas birras, estas crises de rebeldia contra Dios e as leis universais -físicas e morais- damos as costas a tudo que sabemos que é certo e mergulhamos em abismos dos quais demoramos tempos infindáveis para ressurgir, humilhados e feridos, quase dilacerados e, mais uma vez, sermos acolhidos pelos braços do nosso Pai que, pacientemente, continua de coração aberto, pronto para dar-nos mais uma chance de recomeçar.
    Reaprender. Redescobrir. Retomar. Recriar...Eis o que viemos aprender e ensinar neste planeta.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

A rede

    Como sempre ultimamente, atrasada com a crônica da semana, tudo devido ao Festival de Teatro Estudantil que está acontecendo há quinze dias na cidade e do qual sou jurada, mas, como sempre também, aproveito qualquer tempinho de folga -como agora de manhã- para cumprir com a minha obrigação literária e não deixar vocês a ver navios. Mas o festival acaba neste final de semana, então terei um pouco mais de tempo de volta, mesmo com todo o trabalho dos espetáculos de encerramento que ainda me aguarda...
    Ontem, enquanto penava sentada na primeira fileira do teatro assistindo uma peça encenada por 50 criancinhas de 7 a 12 anos (umas gracinhas, todas fofas, mas...) sobre as quais teria de dar alguma opinião logo depois, o que estava me deixando meio apavorada pois não sei quase nada sobre teatro infantil e temia julgá-las demasiado severamente, veio sentar do meu lado uma garota que já fez aula comigo mas teve de sair por problemas familiares, e de repente, assim do nada, após me cutucar gentilmente, começou a falar sobre o teatro, sobre o que sentia, sobre o que sonhava, sobre o que significava para ela, sobre como pretendia seguir a carreira de atriz... No primeiro momento, eu fiquei meio desconcertada e até incomodada, porque se supunha que eu devia era prestar atenção no que estava acontecendo no palco, mas aos poucos, a empolgação nos gestos e a emoção na voz e nos olhos da garota foi me conquistando, meio sem querer, e como já tinha chego a uma conclusão à respepito da peça e das crianças, deixei de lado minha caneta e a folha de notas e prestei atenção no que ela estava falando... E de repente era como se estivesse escutando a mim mesma há alguns anos atrás, quando decidi seguir a minha vocação de artista. Era o mesmo tom, as mesmas palavras, o mesmo brilho no olhar, aquele coração acelerado batendo no peito, iluminado pela descoberta do próprio destino; era seu sorriso igual ao meu, as suas esperanças, a sua felicidade. Era como estar me olhando num espelho e, de repente, em meio àquele cansaço, ao barulho, às luzes e correrias no palco, ao calor e à incerteza do que precisaria falar para não magoar ninguém, percebi, mais uma vez, o quanto eu gosto de fazer o que faço, quão feliz e realizada me sinto por ter ouvido a voz da minha alma e seguido esta vocação. Percebi que não há arrependimentos ou frustrações em meu coração, que mesmo sendo tão difícil às vezes, não trocaria a minha escolha por nada deste mundo, e com os olhos subitamente marejados (ainda bem que estava escuro!) desejei que aquela menina perseverasse em sua escolha, que alimentasse seu sonho para fazê-lo crescer e virar realidade, que não desse as costas a sua vocação, que parecia tão clara naquele momento, pois com certeza não iria se arrepender... São tão poucos os que recebem (ou percebem que receberam) a graça de saber quem são e o que querem fazer nesta vida! E ela era uma deles!... Quando acabou seu inflamado discurso, lhe dei um abraço apertado e cochichei em seu ouvido, enquanto o Menino Maluquinho fazia estripulias lá no palco: "Não deixe que esse deslumbramento se apague, não cale essa voz. Pule no abismo, porque posso assegurar-lhe que vai valer a pena, não importa quão medonho possa parecer às vezes. Pule!".
    Ela me agradeceu e, dando um profundo suspiro, como aliviada por ter encontrado alguém que a entendia e a apoiava, recostou-se na poltrona e ficou olhando para o palco iluminado e barulhento com olhos de encanto e felicidade. E eu, de soslaio, a contemplava e agradecia por Alguém tê-la colocado em meu caminho naquela tarde, pois assim como às vezes os jovens precisam de apóio e compreensão para correr atrás dos seus sonhos, nós, os mais velhos, precisamos nos ver relfetidos neles para nos lembrar dos nossos próprios sonhos e perceber se fomos capazes de realizá-los ou não.
    Bom, e depois deste episódio -que podería valer como uma crônica- aqui vai a da semana passada. Prometo que este fim de semana fico em dia!...

    Está fazendo um calor inusual neste início de primavera, um clima pegajoso e molhado que nos deixa desconcertados e muito irritados (sobretudo aqueles que são alérgicos). Sandálias, camisetas, bermudas, portas e janelas abertas para refrescar o interior das casas, cadeiras na calçada, na área, na rua, vizinhos afogueados se abanando com revistas o leques, estirados diante do ventilador... Tudo isto está totalmente fora de época e faz com que nos sintamos perdidos e um pouco preocupados. O calor está botando as pessoas para fora: televisões na área, piscinas de plástico nos quintais, crianças descalças e de maiô chupando sorvete nos portões, profusão de garrafas de cerveja e refrigerante saindo em sacolas dos bares e padarias, redes preguiçosas estendidas embaixo das árvores quase sem folhas ainda... O dia parece esticar-se num espreguiçar sem fim, sem vontade de nada. Há um outro espírito, uma outra atitude, algo como estar curtindo umas férias fora de época. Os vizinhos estão mais comunicativos, mais sorridentes, mais descontraídos; as crianças invadem a rua com seus gritos e brincadeiras; os bares botam mesinhas de metal pela calçada, as sombrinhas coloridas passeiam pelas avenidas feito um jardim em movimento. A música alegre dos carros estacionados se espalha pelo ar, misturando os estilos e as tribos que brincam de seduzir...
    Passo por todos estes cenários lentamente, carregando a minha mochila e a minha bolsa, testa molhada e blusa colada nas costas, e não posso deixar de sorrir diante da vida que, com frio ou calor, transcorre inalterável, mostrando seus personagens e acontecimentos, cada um em seu lugar, executando a sua rotina, alheio ao destino, ao tempo, à amorte, cumprindo seu papel neste instante, aprendendo e crescendo... Enquanto passo, feito uma mera espectadora e ao mesmo tempo profundamente inserida no acontecer, sinto meu peso, percebo meu movimento, analiso meus pensamentos, tomo consciência do meu corpo em meio a tudo isso como a peça de um quebra-cabeça, única e insubstituível, com todas as suas peculiaridades, a sua energia, seus objetivos, a sua sabedoria, a sua sede de continuar aprendendo e partilhando; e me dou conta de que cada um dos personagens que invadem a rua ao longo da minha caminhada é exatamente igual a mim, que todos formamos uma espécie de rede intimamente ligada, que todos dependemos de todos e que temos o mesmo destino e almejamos a mesma coisa: sermos amados. E que é este desejo inato o que nos leva à toda a grandeza de que somos capazes quando necessário.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

A porta do claustro

E como prometi, aqui está a segunda crônica. O dia continua esplêndido -mesmo se um pouco frio por causa do vento- já tirei a minha soneca, não comi nenhuma besteira no almoço (abobrinha italiana recheada com carne moida e um pratão de salada de folhas) e as cadelas estão beatíficamente esticadas em cima da minha cama, tirando a soneca delas, então... Vamos aproveitar!


    Demorou, foi sofrido; havia dias em que achava que não existia uma saída, um final para a escuridão e, ao mesmo tempo, podia perceber aquele hálito, aquela faísca quase invisível susurrando, apontando, espalhando as pistas em meu caminho. Algumas eu conseguia enxergar, porém, a maioria me escapava, parecia perfeitamente camuflada entre as sombras, tornando-se invisível para mim... Quanta ignorância, quantas mentiras, quantas voltas e reviravoltas assolaram a minha existência durante tantos anos!... E eu sempre com aquela sensação, aquela ânsia, aquela vaga saudade arranhando meu peito! Sabia o que queria? Sabia de onde vinha tudo aquilo? Fazia alguma idéia do por quê?... Acredito que, no fundo, mesmo sem perceber ou admitir, a gente sempre sabe, porém, a maior parte das vezes fica desconcertada com estas certezas, pois nem sempre são o que nós ou os outros esperávamos ou planejávamos e, mesmo pressentindo-as verdadeiras, damos as costas a elas e preferimos percorrer um caminho mais fácil, mais "normal", mais dentro dos padrões. A verdade é que nós nos conhecemos perfeitamente, mas nem sempre temos consciência disto e acabamos agindo de formas que terminam por afastar-nos completamente do que realmente somos e do nosso objetivo nesta vida. Sempre estamos achando que não somos dignos ou capazes de realizar os nossos verdadeirios desejos, receosos de ser desaprovados, julgados e rejeitados pela sociedade, isolados, punidos, e assim, acabamos por nos render às expectativas alheias e frustramos a nossa própria realização. E não há arrependimento suficiente no mundo que compense o vazio que nos acompanhará pelo resto dos nossos dias.
    Eu passei quase quarenta anos numa busca incansável pelas minhas verdades pessoais, pela compreensão, aceitação e realização das minhas ambições mais caras e verdadeiras, artísticas, pessoais, morais e espirituais, e o ápice desta procura aconteceu na noite em que vi Kazuo Ohno no palco. Aquilo foi uma das revelações mais importantes da minha vida -assim como meu encontro com Marilene de Oliveira, a minha psicoterapeuta- Foi uma verdadeira iluminação, um instante de contato pleno e consciente com meu destino, com a minha divindade, com a minha essência. Aquele foi o momento da escolha definitiva, da recompensa após tanto esforço e fidelidade, após tantos encontros e desencontros, de dúvidas, batalhas, muitos fracassos e tão poucas vitórias... Não pude dar as costas e continuar com a minha vida de antes. A mensagem era clara e direta demais: a minha busca havia terminado... Me encontrava novamente na porta do claustro, fazendo aquela escolha radical, absurda aos olhos do mundo, preparada para atravessar o umbral, fechá-la definitivamente e adentrar num mosteiro sem muros e obedecer as regras da Ordem da Humanidade... Que pânico! Que felicidade!... No entanto -e como já esperava- optar não me trouxe a paz, a alegria ou a sabedoria instantaneamente. Longe disso, pois optar é só o primeiro passo de muitos num caminho cheio de armadilhas, de velhos e prejudiciais hábitos, de inseguranças e desafios. Mas há que caminhar, há que enfrentar, há que semear e cultivar a força que nos faz perseverar e alcançar o nosso objetivo. E quando se está lá, mesmo que ainda faltem todos os outros desafios para encarar, veremos que certamente terá valido a pena.

Solidão

Bom, com dois dias inteirinhos de folga é impossível eu não conseguir botar meus escritos em dia!... Após duas apresentações do musical e vários ensaios e trabalhos de montagem numa única semana, está explicado por que deixei todo mundo na mão com as crônicas, mas pretendo me redimir nestes dois dias, acreditem, então não vou postar somente a crônica que estava faltando, mas também a desta semana, porque novamente terei apresentação do musical neste sábado, com ensaio geral na sexta e um outro ensaio -da nossa peça de fim de ano- no domingo... Como podem ver, não vou estar com muita coragem para sentar aqui e escrever algo que preste, então vou aproveitar esta radiante manhã de sol para escrever. Ontem -outro dia divino, com sol e vento, do jeititnho que gosto- consegui, finalmente, postar a terceira parte do conto "Silvestre", então vão ter mais alguma coisinha para se entreter no feriado. Se der tempo -porque a minha filha vem hoje à tarde- posto a parte IV, se não, fica para a semana que vem, em algum momento de improvável folga...
Então, aqui vai a crônica da semana passada e, em seguida, a desta. Espero que curtam!

    Me pergunto como será viajar sempre sozinho, sentar na mesa de um restaurante sem companhia, deitar numa cama num quarto de hotel, assistir televisão sem ninguém para comentar, caminhar pelas ruas, sair e entrar de rodoviárias, aeroportos, estações de trem sem ter alguém para conversar nem compartilhar as experiências da viagem... Acho que eu fiz isso tão somente um par de vezes em minha vida e devo dizer que não foi tão deprimente ou assustador, talvez porque tenho este espírito observador e contemplativo que faz com que qualquer solidão não seja um drama, mas uma oportunidade de aprender. Lembro que havia uma certa e inesperada sensação de liberdade, de independência, de leveza e descompromisso (mesmo que tivesse encontros, ensaios ou apresentações agendados ou horários de ônibus que não podia perder) que me deixavam bastante à vontade. Me sentia meio que uma criança num parque de diversões. (coisa que até hoje me acontece em qualquer saída) Tudo era novidade, cheio de surpresas e deslumbramento... Havia um quê de ansiedade, de receio diante do desconhecido, é verdade, mas nada que empanasse aquele genuíno contentamento que enchia meu peito enquanto me deslocava daqui para lá por minha própria conta.
    Houve um tempo -quando ainda tinha a Gorrión Cia. de Butoh- em que viajava sempre com a Solange, a minha única (e melhor) aluna e performer do grupo, e acho que acabei me acostumando com esta sensação de segurança e conforto que a presença de uma outra pessoa nos provoca, mas isto também podia ser devido, em meu caso específico, às últimas seqüelas daquele período em que desenvolvi a síndrome de pânico (bem depois de ter feito viagens sozinha) o que me deixou muito fragilizada e ansiosa com respeito a ir para longe sozinha. Sinceramente, não sei se agora aceitaria ministrar uma oficina ou montar um espetáculo numa outra cidade ou estado -como já fiz- se alguém não pudesse vir junto para me dar este "suporte" amigo. Lembro que a metade dos ganhos das oficinas iam para a Solange -o que alguns achavam absurdo, pois quem desenvolvia aquele trabalho era eu- mas não somente pela sua companhia ou a ajuda em alguns dos exercícios, mas porque era ela quem conversava com os alunos que, às vezes, inexplicavelmente intimidados pela minha imagem de "mestra", tinham receio de se aproximar para contar as suas experiências ou fazer perguntas, e esta sua contribuição era algo extremamente valioso para mim... Mas também a sua presença forte e meridiana me oferecia um apóio e uma segurança muito agradáveis, já que ela possuia uma extrema praticidade e clareza de pensamento e aquele carisma extraorodinário junto aos alunos, o que parecia tirar um peso das minhas costas.
 Não tenho medo da solidão em si -até gosto dela para meditar e escrever- mas do desamparo que ela poderia trazer em algum momento. A presença da Solange -ou de qualquer outra pessoa em quem eu confie- me confortava de um jeito quase físico, pois sabia que podia contar com ela caso qualquer coisa acontecesse. Acho que passei por muitos apuros (inclusive imaginários!) estando só e não estou mais a fim de correr o risco de que esta situação se repita, mesmo curada da síndrome de pânico e com muito mais jogo de cintura para me virar. Isto, certamente não é mais do que uma das medonhas lembranças que sobraram da minha época de pânico, porque agora sei positivamente que possuo voz e poder de decisão, que o mundo ao meu redor não conspira contra mim nem está cheio de armadilhas e ameaças das quais não poderei me defender... Mas, se puder evitar... "Vai que"... como diz a propaganda.
    No entanto, pensando mais  profundamente sobre a solidão, chego à conclusão de que existe uma enorme diferença entre a solidão espiritual, o desapego, aquela intimidade somente nossa, imprescindível para o crescimento, a compreensão e a comunicação com Deus, e a solidão física, a falta de amparo material e psicológico em momentos importantes. É desta solidão que eu tenho receio, pois pode acabar resultando muito prejudicial e até traumatizante. Porém, estou consciente de que todas as pessoas estão interligadas de alguma forma e são capazes de auxiliar umas às outras em momentos de crise, até por uma questão instintiva; sei que as suas ações formam uma rede de eventos e consequências físicas e imediatas e à longo prazo que interage o tempo todo em cada acontecimento. Por isso, na realidade, nunca estamos tão desamparados assim. Médicos, motoristas, professores, mecânicos, garis, vendedores, empresários, artistas, todos temos uma função física na vida dos outros, a nossa pessoa material é fundamental na dinâmica dos processos do funcionamento da existência coletiva.
Talvez somos um só espírito e temos idéntica origem, porém é a nossa presença física o que nos diferencia e nos dá o papel que iremos representar na história. No entanto, a despeito desta peculiaridade de cada um, todos dependemos de todos em maior ou menor grau, não podemos nos esquecer desta realidade. É com isto que devemos contar nas épocas de provação já que, se um de nós sobrevive e galga mais um degrau, todos nós sobrevivemos e gaçgamos esse degrau junto com ele